O controle tecnológico do concreto aos 63 dias de idade tem se destacado como uma prática inovadora, vantajosa e sustentável na construção civil. Ao oferecer uma análise mais precisa das propriedades do material, especialmente em relação à sua resistência final, essa abordagem supera os testes tradicionais realizados aos 28 dias e ainda contribui para as metas globais de preservação ambiental e redução de emissões.
De acordo com o engenheiro Paulo Helene, especialista em tecnologia do concreto e presidente do Instituto Brasileiro do Concreto (IBRACON), essa abordagem oferece vantagens que vão além do controle tradicional realizado aos 28 dias. A principal importância está na economia e na sustentabilidade.
A prática também contribui para a conservação de recursos naturais. “Com o controle aos 63 dias, há uma menor demanda por matérias-primas não renováveis e energia fóssil, o que reforça o compromisso da construção civil com a sustentabilidade”, afirma Helene.
“A redução do consumo de clínquer e a otimização do traço podem diminuir os custos do material em até 20%. Além disso, há uma queda de 15% a 25% nas emissões de CO2 equivalente por metro cúbico, o que reduz a pegada de carbono e contribui para a preservação ambiental”, explica Helene.
Nesse cenário, a economia de cimento ganha destaque. “A redução na emissão de CO2 e no consumo energético é extremamente significativa”, acrescenta o especialista. A produção de cimento, uma das atividades industriais que mais consomem energia, é responsável por cerca de 8% das emissões globais de dióxido de carbono, um dos principais gases que contribuem para o aquecimento global.
Segundo o presidente da IBRACON, a técnica permite uma redução no traço de concreto por metro cúbico de até 10%, sem alterar o FCK que seria alcançado aos 28 dias. “Do ponto de vista técnico, o controle aos 63 dias permite uma análise mais detalhada da evolução da resistência à compressão axial e da eficiência de misturas que utilizam adições minerais pozolânicas, como pozolanas, calcários, sílica ativa e escórias”.
Esses materiais são amplamente utilizados em cimentos sustentáveis, que possuem baixo teor de clínquer, alinhando-se às demandas globais por soluções mais ecológicas e eficientes.
Combinando economia, sustentabilidade e avanços técnicos, o controle tecnológico do concreto aos 63 dias se apresenta como uma alternativa promissora para transformar práticas tradicionais e atender às exigências de um setor cada vez mais comprometido com a eficiência e a preservação ambiental.
Segurança estrutural e durabilidade como prioridade
Quanto à durabilidade e resistência estrutural, o especialista Paulo Helene assegura que não há qualquer prejuízo, desde que o referencial de durabilidade seja ajustado para 63 dias, seguindo a tendência mundial. “A resistência estrutural e a segurança das estruturas permanecem intactas, desde que as cargas de projeto, sem majoração, sejam aplicadas apenas após os 63 dias”, ressalta Helene.
Essa prática, que complementa o controle tradicional realizado aos 28 dias, já demonstra seu potencial em diversos setores e tipos de projetos. No entanto, sua implementação em larga escala ainda enfrenta desafios, exigindo melhorias nos padrões de execução e maior aceitação por parte do mercado.
Setores que adotam o controle aos 63 dias
O controle tecnológico do concreto aos 63 dias já está sendo utilizado em diversos tipos de projetos e setores. Entre eles, destacam-se as estruturas de Obras de Arte Especiais (OAEs), barragens, Estações de Tratamento de Água (ETAs), Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e estruturas convencionais de edifícios residenciais e comerciais. Essa ampla aplicação demonstra o potencial da prática para atender às demandas de diferentes segmentos da construção civil.
Desafios para a implementação
Apesar das vantagens, a técnica ainda enfrenta algumas barreiras. Uma das principais é a necessidade de melhorar os padrões de execução de obras e de operações de ensaio, já que a aceitação do concreto é postergada por mais de dois meses. Helene alerta também para os cuidados específicos em estruturas pré-fabricadas, com desformas precoces ou protensão precoce, além da atenção redobrada às cargas atuantes antes dos 63 dias.
Do ponto de vista tecnológico, o controle aos 63 dias não exige mudanças significativas nos métodos tradicionais. “Basta moldar mais corpos de prova para serem ensaiados aos 63 dias. Para informações em idades mais baixas, pode-se utilizar o ensaio de maturidade”, explica Helene.
Para ele, para que a prática evolua e ganhe mais espaço e se torne amplamente adotada no setor, é fundamental que as normas técnicas brasileiras, como a ABNT NBR 6118 e a ABNT NBR 12655, sejam atualizadas. “Atualmente, essas normas não contemplam o controle a 63 dias, o que limita sua aplicação. Apenas engenheiros experientes, familiarizados com normas internacionais como o EuroCode II, o fib Model Code 2020 e o ACI 318, têm utilizado essa prática em seus projetos estruturais”, explica Helene.
Com a possibilidade de mudanças normativas e a crescente busca por soluções mais sustentáveis, o controle tecnológico do concreto aos 63 dias tem potencial para se tornar um padrão amplamente adotado, trazendo avanços significativos para a construção civil no Brasil e no mundo.
Para aprofundar essa discussão, o tema será destaque no Congresso “Construindo Conhecimento”, parte do evento Concrete Show, que acontecerá entre os dias 25 e 27 de agosto, no SP Expo. O engenheiro Paulo Helene liderará um painel exclusivo, no qual abordará os benefícios, desafios e inovações relacionados ao controle tecnológico do concreto aos 63 dias.