A integração das etapas de projeto e execução está mudando a forma como a construção civil opera, reduzindo a fragmentação de responsabilidades e promovendo maior eficiência. Esse é o princípio do conceito de design-build, que elimina a atuação isolada de diferentes empresas em um mesmo empreendimento. Segundo o Design-Build Institute of America, o modelo de projeto e construção integrados deve representar mais de 47% dos gastos na construção civil até 2028, movimentando US$ 2,6 trilhões entre 2024 e 2028.
Para Maria Ângela Polo, CEO da We Are Group, empresa especializada em construção civil, o design-build permite um alinhamento estratégico antes mesmo da mobilização dos canteiros. Em entrevista, ela detalha como o modelo está sendo aplicado no setor, com destaque para a indústria do concreto, e explica os benefícios e desafios dessa abordagem.
O conceito está claro para os empreendedores brasileiros?
Existe um ponto importante que ainda gera confusão no mercado. Muitas vezes, design-build é entendido apenas como um contrato único. Na minha visão, o verdadeiro diferencial está em outro aspecto: preservar a independência técnica entre arquitetura e engenharia, permitindo que cada disciplina contribua com aquilo que faz melhor. A arquitetura tem a missão de traduzir a estratégia do cliente em espaços funcionais, alinhados à cultura da empresa e à experiência das pessoas. A engenharia garante que essa visão seja executada com rigor técnico, controle financeiro e previsibilidade. Quando essas duas competências trabalham de forma integrada, mas sem que uma esteja subordinada à outra, surge um ambiente de colaboração que melhora a qualidade das decisões ao longo de toda a obra.
Na prática, qual é a principal diferença entre o design-build e o modelo tradicional?
A maior diferença está no momento em que a equipe responsável pela execução da obra entra na discussão. No modelo tradicional, muitas vezes recebemos um projeto já bastante avançado, e é durante a obra que começam a aparecer questões relacionadas à execução, ao custo ou ao prazo que poderiam ter sido discutidas antes. No design-build, essa conversa começa muito mais cedo. Arquitetura, engenharia e execução conseguem avaliar juntas se aquela solução funciona não apenas no papel, mas também no canteiro. Isso evita que decisões importantes precisem ser revistas quando alterá-las já ficou mais caro e complicado.
Por que isso é especialmente importante quando falamos de concreto?
Porque o concreto não permite tanta margem para improvisação depois que determinadas etapas avançaram. Uma decisão pode interferir na estrutura, nas instalações, nas formas, no acabamento, na logística e na sequência de execução. Por isso, quanto mais conseguimos antecipar essas interfaces, melhor. O ganho não está simplesmente em executar mais rápido, mas em chegar à obra com mais problemas já resolvidos.
Qual é o principal benefício do design-build para a indústria do concreto?
Eu resumiria de uma maneira muito simples: resolver antes de executar. No modelo tradicional, muitas vezes quem executa recebe uma solução pronta para construir. No design-build, quem conhece a execução participa da construção dessa solução. No caso do concreto, em que uma decisão tomada hoje pode ser muito difícil ou cara de alterar amanhã, essa diferença é particularmente importante.
O design-build pode efetivamente reduzir custos?
Pode, mas eu tomaria cuidado com a ideia de que ele é sinônimo de obra mais barata. O ganho vem principalmente da possibilidade de tomar decisões melhores com antecedência. Às vezes, conseguimos rever uma solução construtiva, uma especificação ou um processo e encontrar uma alternativa mais eficiente. É aí que entra o value engineering. Engenharia de valor não é pegar um projeto pronto e procurar onde cortar custos. É colocar engenharia, arquitetura e execução para pensar juntas: existe uma maneira melhor de entregar o resultado que o cliente quer?
Em relação ao prazo, o design-build permite acelerar a obra?
Sim, porque algumas etapas podem caminhar em paralelo. Mas existe uma diferença enorme entre fast-track e simplesmente começar a obra antes da hora. Para acelerar com segurança, é preciso saber exatamente o que já está definido e pode avançar e o que ainda depende de decisão. Se isso não estiver muito bem coordenado, você não ganha tempo; apenas antecipa o problema.
Existe algum risco em concentrar projeto e execução dentro de um modelo integrado?
Existe, principalmente se integração for entendida como todo mundo obedecendo à mesma lógica. Eu penso justamente o contrário. Arquitetura e engenharia têm papéis diferentes e precisam continuar tendo. A arquitetura olha para conceito, funcionalidade e experiência; a engenharia olha para viabilidade, execução, desempenho, custo e prazo. Quando trabalham juntas desde o começo, acontece algo que chamamos internamente de “tensão positiva”: uma disciplina questiona a outra. E
O que mudou nos últimos anos e tornou esse modelo mais interessante para a construção?
A tecnologia ajudou muito. BIM, modelagem, ferramentas de gestão e plataformas colaborativas facilitaram a troca de informações entre quem projeta, quem gerencia e quem executa. Mas acho que houve também uma mudança por parte dos clientes. Hoje existe uma cobrança muito maior por previsibilidade. Não basta entregar a obra; é preciso ter mais controle sobre prazo, orçamento e impacto da obra na operação. Por isso, vejo o design-build ganhando espaço não simplesmente como um formato de contratação, mas como uma forma diferente de organizar as decisões do projeto.