Cerca de 3% do concreto produzido retorna como resíduo. Embora pareça pouco, o percentual representa um volume significativo de materiais que já consumiram recursos, energia e custos de produção e que ainda podem voltar à cadeia produtiva.
O dado foi apresentado por Luiz Brito, consultor técnico de Pesquisa & Desenvolvimento e Qualidade Sênior da Votorantim Cimentos, na Arena 120 Ideias, durante o Concrete Show 2026.
Para o executivo, o desafio da circularidade começa antes mesmo da demolição. “O resíduo não começa na demolição. A demolição é o final dele. Ele começa na construção”, afirmou.
Sobras devolvidas pelas obras e o material aderido ao interior das betoneiras, conhecido como lastro, tradicionalmente são tratados como um problema operacional e de descarte. Mas tecnologias de reaproveitamento começam a mudar essa lógica, transformando resíduos em agregados reciclados ou permitindo que o próprio concreto retorne ao processo produtivo.
Mais do que uma agenda ambiental, a circularidade passa a representar uma questão de eficiência, redução de perdas e aproveitamento de matérias-primas em uma cadeia intensiva no consumo de recursos naturais.
Diferentes tecnologias, diferentes estratégias
Não existe uma solução única para o reaproveitamento do concreto. A escolha depende do volume de produção, do espaço disponível, da infraestrutura da unidade, do tipo de resíduo e do nível de investimento que cada empresa está disposta a fazer.
Uma das alternativas é a reciclagem do concreto fresco, com equipamentos capazes de separar agregados e água. O processo reduz o descarte, mas apresenta desafios relacionados ao tratamento da lama residual e à recuperação do cimento presente no material.
Outra rota é a britagem do concreto endurecido. Nesse caso, as sobras são transformadas em agregados reciclados, que podem ser utilizados em diferentes aplicações. A vantagem está na possibilidade de transformar um resíduo em matéria-prima. O desafio é garantir controle e previsibilidade, já que a variabilidade dos concretos originais influencia as características do agregado obtido.
Tecnologias mais recentes também buscam simplificar esse processo. O uso de aditivos superabsorventes, por exemplo, permite transformar rapidamente sobras de concreto em agregados reciclados, dispensando etapas como britagem e peneiramento.
Há ainda soluções baseadas em estabilizadores de hidratação, capazes de manter o concreto retornado em condições de reaproveitamento. Nesse modelo, o material pode voltar ao processo produtivo como concreto, preservando uma parcela maior dos insumos originais.
O ganho potencial é significativo, mas exige rigor operacional. Dosagem, tempo de retorno, temperatura e controle técnico são fatores decisivos para o sucesso da operação. “Nenhum método sozinho consegue evitar 100% da geração de resíduo. Mas, com dois métodos bem aplicados, é possível recuperar todo o material”, destacou Brito.
Circularidade também é eficiência
A discussão sobre economia circular frequentemente está associada à agenda ambiental. No entanto, para a indústria de materiais de construção, ela também envolve produtividade e rentabilidade.
Recuperar agregados, água e até mesmo o concreto integralmente significa reduzir perdas de materiais que já foram adquiridos e processados. Para empresas verticalizadas, que atuam também na extração de areia e brita, a lógica ganha uma dimensão adicional: preservar recursos naturais e ampliar a eficiência no uso das reservas minerais.
A própria combinação de tecnologias pode ampliar os resultados. A escolha depende das características de cada operação, incluindo infraestrutura, equipe, área disponível e volume de concreto produzido.
Nesse cenário, a gestão do resíduo deixa de ser uma atividade periférica e passa a integrar decisões sobre investimentos, logística, operação e planejamento industrial.
Inteligência artificial para reduzir perdas na origem
O futuro da circularidade também passa por evitar que o resíduo seja gerado. Ferramentas de inteligência artificial e planejamento digital começam a ser utilizadas para melhorar a programação das concretagens e prever demandas nas diferentes unidades de produção.
A aplicação dessas tecnologias pode contribuir para reduzir devoluções, um dos principais fatores associados às sobras de concreto.
É uma mudança importante de perspectiva. Em vez de concentrar esforços apenas no tratamento do resíduo depois que ele retorna à concreteira, a indústria passa a buscar maior precisão ao longo de toda a operação.
Carbono deve entrar cada vez mais na conta
Outro fator pode acelerar essa transformação: a crescente importância das emissões de carbono como critério de decisão na cadeia da construção.
O uso de agregados reciclados pode contribuir para reduzir impactos associados à extração e ao transporte de matérias-primas virgens. Ao mesmo tempo, construtoras e grandes contratantes começam a ampliar as exigências relacionadas à pegada ambiental dos materiais utilizados nos empreendimentos.
As Declarações Ambientais de Produto (EPDs) e outros instrumentos de mensuração tendem a ganhar relevância nesse processo. Para produtores de cimento, concreto e agregados, a capacidade de comprovar desempenho ambiental pode deixar de ser apenas um diferencial reputacional e passar a influenciar decisões de compra e contratação.
“Cada vez mais, o carbono será um critério de projeto”, pontou Brito. A circularidade tende a ganhar força à medida que emissões e desempenho ambiental passam a ter maior peso econômico na cadeia, segundo o executivo.
Um novo ativo para a cadeia construtiva
A transformação mais relevante talvez seja conceitual. O resíduo não precisa representar apenas um passivo operacional, ambiental ou regulatório. Com tecnologia, controle e escala, ele pode se transformar em agregado reciclado, adição para novos materiais ou insumo para outras etapas da cadeia construtiva.
Isso exige investimento e mudanças na operação, mas também abre espaço para maior integração entre mineração, produção de materiais e construção.
“Na verdade, o resíduo deixa de ser um problema técnico. O resíduo é uma oportunidade que a gente não está sabendo aproveitar bem”, resumiu Brito.
Para um setor intensivo no consumo de recursos naturais, o avanço da circularidade representa uma oportunidade de repensar o valor dos materiais ao longo de todo o seu ciclo de vida.
A questão, portanto, não é apenas como descartar melhor. É como fazer com que aquilo que hoje sai da operação como perda volte a gerar valor.
Na construção de uma cadeia mais eficiente, o resíduo pode deixar de ser o fim do processo e passar a ser o começo de uma nova matéria-prima.