Os pesquisadores alemães estão liderando uma mudança de foco na discussão da sustentabilidade na construção civil: a compreensão do papel que o concreto desempenha dentro do sistema construtivo e não mais a busca de um produto “ideal”.
A visão predominante em instituições de referência é baseada no conceito de trocas adequadas. Explicando: cada decisão de projeto precisa equilibrar carbono incorporado, desempenho térmico, durabilidade, resistência ao fogo, massa estrutural, consumo de materiais, custo e vida útil da edificação.
“Em outras palavras, um concreto com menor pegada de carbono não será necessariamente a melhor solução se comprometer o desempenho térmico, aumentar a espessura das paredes, reduzir a durabilidade ou exigir maior consumo de materiais em outras partes da estrutura”, explica o engenheiro Henrique Ramos, diretor e fundador da Isobloco.
Segundo o especialista em tecnologias construtivas de baixo carbono, essa nova abordagem está sendo liderada por organizações como o Fraunhofer Institute for Building Physics (Fraunhofer IBP) e o TUM Venture Labs – Built Environment, ligado à Technical University of Munich (TUM), com as quais ele tem colaborado tecnicamente.
Ramos destaca que o direcionamento observado na Alemanha – e nas novas regulamentações europeias – indica que a construção caminhará para soluções de menor massa estrutural, maior desempenho e comprovação objetiva da redução das emissões de carbono.
“Não basta utilizar menos cimento; é necessário demonstrar matematicamente o desempenho ambiental do sistema construtivo”, resume.
De acordo com o especialista, a sustentabilidade deixa de ser analisada sob a óptica de um único material e passa a ser avaliada pelo desempenho global do edifício ao longo de todo o seu ciclo de vida. Essa nova visão sistêmica, inclusive, deve orientar a próxima geração de tecnologias para o concreto, com mais cimentos de alta performance e uso de rejeitos.
A lista de requisitos inclui ainda a preservação do material contra patologias ao longo da vida útil e, sobretudo, a economia de energia operacional gerada por um desempenho térmico adequado.
Ramos cita o caso da União Europeia que passa a adotar uma nova normativa para o ciclo de vida do carbono. A partir de maio de 2026, a métrica deve ser rigorosamente declarada em kg CO₂e/m², seguindo o Regulamento Delegado 2026/52. As novas regras determinam ainda que, a partir de 2028, todo edifício com mais de 1.000 m² será obrigado a apresentar a métrica e, até 2030, a regra se estenderá às construções de qualquer dimensão.
“Isso significa que o conceito de sustentável deixará de ser o que o fabricante diz sobre o produto e passará a ser exclusivamente o que o produto consegue provar matematicamente”, diz o especialista. Ele explica que para alcançar esse padrão, a indústria do concreto precisa avançar em diversas frentes tecnológicas e processuais. O primeiro pilar é a redução de massa.
Ele destaca que a União Europeia já compreendeu que o futuro da construção civil está no uso de microconcreto mineral leve, capaz de manter alta resistência estrutural utilizando menos material por metro cúbico.
A lógica é física e financeira: menos massa significa menos carga sobre as fundações, o que resulta em uma redução direta na necessidade de aço e cimento em todo o sistema construtivo. “Estes são, historicamente, os dois insumos que mais pesam na conta de emissões de carbono de qualquer edificação”, lembra.
O especialista explica que é possível produzir um microconcreto, inclusive sem uso de brita ou pedra, que atinge os mesmos 30 MPa do concreto convencional, mas pesando apenas entre 1.600 e 1.800 quilos por metro cúbico. O processo envolve inovações disruptivas, como a introdução de nanobolhas de cura natural, e dispensando a necessidade de fornos ou autoclaves intensivos em energia.
“Ao planejar uma obra desde a sua concepção com essa tecnologia, as construtoras podem alcançar economias reais de 15% a 20% no custo estrutural, eliminando o desperdício inerente ao superdimensionamento tradicional”, detalha.
Ramos destaca que o papel do cimento. Para ele, a sustentabilidade não se restringe à redução dos volumes desse material de forma arbitrária, correndo riscos estruturais. A solução é outra e envolve a evolução para formulações de menor pegada de carbono por unidade de desempenho.
O desenvolvimento inclui a migração para cimentos de maior valor agregado, como o CP5 ou cimentos de baixo carbono da indústria europeia, combinados com inteligência química, para otimizar o traço da mistura de concreto.
Segundo o especialista, tornou-se possível retirar até 209 kg de cimento por 1,5 metro cúbico de concreto, desde que se adote uma aditivação avançada de minerais e polímeros.
Além disso, ele argumenta que a sustentabilidade deve abraça a circularidade em sua essência, ou seja, iniciativas como a substituição de parte da areia natural por rejeitos de mineração de rocha. Ou ainda a utilização de desmoldantes provenientes de óleo vegetal reciclado, que ajudam a transformar o ciclo de vida dos materiais.
“O resultado dessa engenharia é um material que não apenas zera emissões em sua produção, mas se torna carbono negativo, sequestrando cerca de 11 kg de carbono por cada metro quadrado de área construída”, detalha Ramos.
A sustentabilidade na indústria do concreto também precisa levar em conta as mudanças climáticas. É o caso do isolamento térmico, que deixou de ser um artigo de luxo ou conforto para se tornar uma barreira de proteção à vida humana, tanto contra o frio quanto contra as crescentes ondas de calor.
Em outras palavras: paredes sem isolamento térmico e suscetíveis à umidade e ao mofo não são apenas um problema de engenharia, mas também de saúde pública.
Concreto mineral leve: solução eficiente e sustentável
O concreto mineral leve surge como uma solução inovadora para enfrentar os desafios de isolamento térmico e acústico. Segundo o especialista, essa tecnologia utiliza o conceito de single layer (camada única), que combina alto desempenho com uma espessura reduzida, tornando-se uma alternativa eficiente e sustentável.
“Enquanto na Alemanha produtos baseados em concreto celular precisam de 32 a 34 cm de espessura para atingir as exigências de net zero, as novas tecnologias de concreto leve mineral atingem os mesmos índices com apenas 21 centímetros”, detalha.
Segundo ele, o desempenho também foi comprovado com uso de placas de retrofit de apenas 3 a 5 cm em comunidades carentes de São Paulo, iniciativa que tem demonstrado resultados positivos na melhoria da salubridade, bloqueando umidade e reduzindo temperaturas.
Ramos destaca ainda que ensaios conduzidos conforme protocolos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) atestam que uma simples placa de 10 centímetros desse material suporta uma exposição a 1.200 °C por seis horas de um lado, enquanto a face oposta mantém-se a 72 °C.
A vida útil das edificações também precisa fazer parte da pauta de sustentabilidade com maior ênfase. O especialista lembra que um material não pode ser considerado sustentável se, ao longo de sua vida, exigir manutenção constante devido a patologias crônicas.
“A fissuração, o consumo excessivo de água nos canteiros de obra, falhas de estanqueidade e a necessidade de múltiplas etapas de acabamento, como chapisco, reboco, selador e massa corrida, representam retrabalho e, consequentemente, emissões de carbono ocultas que métricas superficiais de produção ignoram”, argumenta o especialista.
O futuro da construção sustentável
A alternativa, na avaliação dele, está nos concretos de alta tecnologia, capazes de mitigar essas patologias desde a origem. Essa abordagem deve ser complementada por sistemas construtivos de fácil execução, que permitam o uso de mão de obra diversificada, eliminando desperdícios de tempo e recursos na obra e ampliando a capacidade produtiva.
“O futuro não será definido pelo material que se declara sustentável, mas pelo sistema construtivo capaz de comprovar desempenho ambiental, estrutural e energético ao longo de todo o ciclo de vida da edificação. E essa já não é apenas uma agenda europeia. O Brasil também assumiu esse compromisso, e a construção civil precisará responder a ele”, finaliza Ramos.