A definição da resistência característica do concreto à compressão (FCK) é uma decisão estratégica no ciclo de vida de um empreendimento. O FCK deve ser analisado não apenas como um parâmetro de projeto estrutural, mas como uma variável que afeta diretamente o fluxo de caixa, o cronograma, a mitigação de riscos e a necessidade de controles tecnológicos na obra.
Segundo Augusto Negrão, CEO da Novac Construtora, a especificação adequada do FCK, que assegura a tensão mínima que o material deve suportar aos 28 dias, com 95% de confiabilidade, afeta diretamente o dimensionamento da obra, a seleção de materiais e o desempenho do empreendimento.
O engenheiro lembra que, quanto maior o dimensionamento do FCK, mais oneroso se torna o concreto, devido ao aumento no consumo de cimento e à necessidade de controles operacionais diferenciados.
Projetos simples podem ser feitos com FCKs de 20 a 25 MPa, unidade de medida usada para indicar a resistência do concreto à compressão. Já as obras em ambientes agressivos ou de grande infraestrutura, por exemplo, exigem FCKs superiores a 35 Mpa.
Ele destaca ainda que a otimização de custos deve apoiar-se nas diretrizes da Norma ABNT NBR 6118, que viabiliza o uso de diferentes valores de FCK em partes distintas de uma mesma estrutura, permitindo a alocação inteligente de recursos no projeto.
Em artigo para o International Journal of Advanced Engineering Research anda Science, a brasileira Lara Santos, reforça a avaliação de Negrão. A engenheira destaca que o metro cúbico (m³) de um concreto de alto desempenho (HPC, com FCK elevado) possui um custo unitário superior ao do concreto convencional, em função da necessidade de adições minerais, como sílica ativa, e de aditivos superplastificantes.
Contudo, a gestão de custos não deve ser feita de forma isolada. A adoção de um FCK maior resulta em uma otimização global da estrutura, diminuindo o consumo de dois insumos caros: o aço e as formas.
Ainda de acordo com o artigo, o pequeno acréscimo financeiro no volume do concreto é diluído pelo ganho em área útil e velocidade de execução. É o caso de pilares mais esbeltos, que aumentam a área útil comercializável e facilitam o layout de garagens, permitindo a criação de mais vagas de estacionamento.
Gestão de riscos
Em outro estudo, a engenheira Ingrid Cavalcante mostrou que o custo total dos pilares (concreto + aço + formas) em edifícios de 15 e 20 pavimentos apresentou reduções de até 28% com a utilização do concreto de 40 MPa em relação de 25 MPa, reforçando a necessidade de uma análise mais ampla.
Negrão acrescenta um dado importante: a transição para elementos em concreto pré-fabricado é uma tática gerencial interessante, pois sua produção industrializada em ambiente controlado permite obter concretos de maior resistência e uniformidade sem gerar grandes custos adicionais.
A gestão de riscos é outro fator a ser considerado, uma vez que o FCK atua como um mitigador direto no caso de intempéries ambientais e falhas estruturais. O CEO da Novac Construtora lembra que a falha na obtenção do FCK de projeto representa um grave risco à integridade da edificação, pois o índice é o definidor da capacidade de carga e da durabilidade contra corrosão e agentes agressivos.
De acordo com o engenheiro, a mitigação de riscos no canteiro de obras exige que os gestores supervisionem de perto os processos para evitar erros de execução frequentes que comprometem o desempenho estrutural, tais como: excesso de água na mistura, dosagem incorreta, atrasos no transporte antes do lançamento, adensamento insuficiente e falhas no processo de cura.
Negrão reforça que o não cumprimento de parâmetros importantes, como utilizar menos de 30 MPa em ambientes agressivos, eleva exponencialmente o risco de patologias futuras.
A engenheira Lara, por sua vez, destaca que edifícios altos estão sujeitos a grandes esforços horizontais de ventos, que causam deslocamentos e “efeitos de segunda ordem”. Como o concreto com maior FCK possui um módulo de elasticidade superior, ele aumenta a rigidez das edificações, mitigando riscos.
Por outro lado, o aumento das exigências estruturais demanda uma modernização no controle tecnológico e a adoção de inovações no canteiro, questão destacada igualmente por Negrão e que precisa ser considerada pelos gestores.
FCK maior aumenta produtividade
O CEO da Novac destaca que uso de concretos de alto desempenho (CAD) e ultra-alto desempenho (UHPC) já é uma realidade viável em obras complexas, impulsionado pelos avanços na tecnologia de materiais e na aplicação de aditivos específicos.
Porém, para garantir a entrega do FCK planejado, ele defende que a gestão tecnológica deve estabelecer protocolos rigorosos em três fases críticas:
- Dosagem: é necessário garantir o controle exato na relação água/cimento, a medição precisa dos insumos e a obrigatoriedade da utilização de um traço previamente testado.
- Preparo e aplicação: deve-se evitar a segregação da mistura, garantindo a sua homogeneidade, e realizar o transporte e lançamento rapidamente, além de assegurar o uso correto de vibradores no adensamento para eliminar bolhas de ar.
- Cura sistematizada: implementar um processo de cura imediatamente após a pega é recomendável, mantendo o concreto úmido por um período mínimo de 7 dias e isolando a estrutura de temperaturas extremas, sol excessivo e vento.
Segundo Negrão, ao tratar o FCK sob uma óptica analítica, alinhando controle tecnológico, normatização da NBR 6118 e mitigação de falhas executivas, os gestores garantem a entrega de projetos estruturalmente seguros, duráveis e financeiramente equilibrados.
Lara reforça a necessidade de que equipe de gerenciamento implemente um plano de controle de qualidade e tecnológico rigoroso na aplicação de concreto de alto desempenho no canteiro. Isso é necessário porque esse produto exige maior precisão laboratorial, controle rígido de dosagem, e supervisão das fases executivas.
E mais: diferente do concreto convencional, a aplicação de concretos de alta resistência pode exigir mão de obra mais qualificada, o que deve estar previsto no orçamento da construtora.
O gestor da obra também precisa garantir que procedimentos básicos, como adensamento e cura sejam executados com perfeição. As falhas nesses processos anulam o FCK de projeto, resultando em aumento de porosidade, queda de resistência mecânica e fissuras de retração.
Os especialistas lembram ainda que a escolha por um FCK maior beneficia diretamente a produtividade. Com seções transversais menores e armaduras menos densas (menos aço), a montagem estrutural é simplificada e a concretagem se torna mais rápida e fluida.
Além disso, a alta resistência inicial de concretos especiais pode viabilizar tempos de desforma mais curtos, acelerando o ciclo de pavimentos da edificação.
Em resumo, elevar o FCK de uma edificação é uma decisão que transfere custos de insumos brutos e pesados para a inteligência e tecnologia do material. O resultado é a entrega de um ativo com menores riscos patológicos, maior estabilidade, execução acelerada e planta arquitetônica otimizada.