A construção civil no Brasil enfrenta desafios significativos relacionados à mão de obra, mesmo em um cenário de crescimento do setor. Dados recentes indicam que, embora o setor continue sendo um dos principais motores de geração de empregos formais no país, há uma escassez de profissionais qualificados, o que impacta diretamente a produtividade e a capacidade de expansão.

Pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), revela que mais de 69% das empresas têm dificuldade para contratar ou reter trabalhadores qualificados. Esse descompasso entre o crescimento do setor e a qualificação da mão de obra tem gerado problemas como aumento de custos, desperdício de materiais e atrasos nos prazos de entrega das obras. Além disso, o saldo líquido de empregos formais na construção civil em 2025 foi de 17,3 mil, um número que, embora represente um aumento de 25,5% em relação a 2024, ainda é 51,8% menor do que o registrado em 2022.

Para Júlio Timerman, diretor-presidente do Instituto Brasileiro do Concrete (Ibracon), a construção civil enfrenta atualmente grandes desafios na contratação de mão de obra, principalmente devido à falta de qualificação profissional. Essa carência resulta em construções com qualidade inferior ao esperado, desperdício significativo de materiais, retrabalhos frequentes, aumento de custos e atrasos nos prazos de entrega.

Ele aponta que essa situação é agravada pela ausência de cursos de qualificação e certificação, além da falta de incentivos fiscais que permitam às empresas investir na capacitação de seus profissionais ou contratar mão de obra já qualificada.

Júlio também destacou o papel estratégico das inovações tecnológicas no setor. Segundo ele, a industrialização da construção civil não apenas reduz prazos e melhora a qualidade do produto final, mas também exige profissionais mais qualificados para atender às novas demandas. “A tecnologia pode e deve ser utilizada como uma ferramenta para atrair e capacitar mão de obra qualificada”, afirmou.

Ele acrescenta que a criação de um plano de carreira estruturado, com trilhas profissionais bem definidas, não apenas motiva os trabalhadores, mas também contribui para a retenção de talentos e para a melhoria contínua da qualidade das obras. “A profissionalização no canteiro de obras é um caminho sem volta. Precisamos investir em formação técnica, certificação e na valorização dos profissionais para atender às demandas de um mercado cada vez mais exigente e tecnológico”, destacou.

Além disso, Timerman enfatizou que a adoção de novas tecnologias e processos industrializados exige uma força de trabalho mais qualificada, capaz de operar equipamentos modernos e aplicar técnicas avançadas. “A transformação do setor passa pela valorização do capital humano, que é o principal motor para a inovação e a competitividade na construção civil”, concluiu.

Trilha de formação profissional

De acordo com Davi Fratel, diretor de Gente no Sinduscon-SP e vice-presidente de Relações Trabalhistas da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o mercado da construção civil não enfrenta apenas uma escassez de trabalhadores ou engenheiros civis, mas sim um significativo déficit de qualificação profissional.

Para superar esse gargalo estrutural, ele destaca a iniciativa liderada pelo sindicato paulista, denominada Trilha de Formação Profissional, um programa em parceiria com o Senai, estruturado para integrar capacitação técnica e o desenvolvimento de competências comportamentais, como liderança, trabalho em equipe e adaptação às inovações tecnológicas.

“Essa iniciativa possui um enorme potencial para alcançar escala nacional, podendo ser adaptada e replicada em outras regiões com o apoio da CBIC- Câmara Brasileira da Indústria da Construção”, explica, destacando que o modelo desenvolvido é flexível o suficiente para ser ajustado às particularidades locais. Isso amplia o impacto positivo no setor da construção civil, promovendo a valorização do capital humano como o principal motor de inovação e competitividade.

De acordo com Fratel, o primeiro passo para o sucesso da iniciativa é a adequação da nomenclatura profissional. “A escolha das palavras é fundamental, e na construção civil isso não é diferente. A evolução do setor começa pela revisão do vocabulário corporativo”, defende o diretor do Sinduscon-SP, reforçando a importância de uma linguagem alinhada às transformações do mercado.

Na prática, a Trilha de Formação Profissional é estruturada em etapas que incluem:

  • O indivíduo ingressa no canteiro como aprendiz, assumindo o cargo de assistente de produção.
  • Por meio de avaliações, ele avança para oficial de produção 1 e 2.
  • Na sequência, pode ser promovido a encarregado 1 e 2.
  • E o topo da carreira operacional ocorre nos cargos de mestre de obras 1, 2 e 3.

Cada etapa da Trilha de Formação Profissional exige que o trabalhador complete horas de treinamento e seja aprovado em certificações conduzidas pelo Senai. O grande diferencial da iniciativa está na logística: o Senai oferece as formações de forma gratuita diretamente no local de trabalho, facilitando o acesso e a participação dos colaboradores.

“As construtoras associadas assumiram o compromisso de disponibilizar de duas a quatro horas semanais, durante o expediente, para que os funcionários possam se dedicar aos estudos. Isso significa que as empresas remuneram os colaboradores enquanto eles se qualificam, promovendo um ambiente que valoriza o desenvolvimento profissional”, explica Fratel.

Para aqueles que já atuam na área, o programa inclui processos de requalificação, nos quais é necessário comprovar aptidão para obter as certificações, garantindo que os profissionais estejam alinhados às exigências do mercado atual.

Ainda segundo o diretor do Sinduscon, um consultor especializado será responsável por monitorar a implementação dessas trilhas, com o objetivo de integrar o modelo à convenção coletiva do setor. “Essa incorporação visa estabelecer obrigações claras tanto para empregadores quanto para empregados, garantindo que a qualificação profissional se torne uma prática institucionalizada e sustentável dentro do setor da construção civil”, acrescenta.

Multifuncionalidade ganha tração

A Trilha também aborda um dos desafios históricos do setor: a sazonalidade na gestão de obras. Profissionais como carpinteiros e armadores, por exemplo, frequentemente executam suas especialidades durante meses e, ao término de uma fase do projeto, são dispensados. Para mitigar esse problema, as Trilhas Profissionais promovem a multifuncionalidade, capacitando os trabalhadores para atuarem em diversas frentes.

Por meio do treinamento, o operário é preparado para desempenhar diferentes funções. Um profissional especializado em armação de aço, por exemplo, aprende a realizar o lançamento de concreto, a elevação de paredes de blocos e até serviços de acabamento. Essa diversificação de habilidades permite que o trabalhador participe de várias etapas da obra, prolongando sua permanência no canteiro, reduzindo a rotatividade e promovendo a retenção de talentos.

Além disso, quando o mercado passar a reconhecer os certificados emitidos pela trilha padronizada, a transição de profissionais entre diferentes construtoras será mais ágil e objetiva, fortalecendo a empregabilidade e a valorização da mão de obra qualificada.

Outro pilar essencial para a evolução do setor é a industrialização, área em que o Brasil já se destaca como referência mundial em tecnologias de concreto, incluindo elementos pré-moldados, pré-lajes, paredes de concreto, pavimentação e argamassas de alto desempenho, além de modernos equipamentos de bombeamento.

No entanto, Fratel alerta: “O investimento em industrialização e em softwares como BIM e AutoCAD perde o sentido se a força de trabalho não estiver capacitada para utilizá-los.” O especialista enfatiza que esse descompasso impacta diretamente a produtividade da construção civil, reforçando a importância de alinhar tecnologia e qualificação profissional para impulsionar o setor.

Impactos na industrialização

O estudo recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), lançado em maio de 2026, comprova a avaliação dele, ao mostrar que a produtividade no setor teria caído 20,4% entre 1995 e 2024. Segundo a pesquisa, a qualificação da mão-de-obra estaria entre os três principais desafios, ao lado da baixa industrialização e do uso restrito de tecnologia.

De acordo com o levantamento da CNI, 92% dos trabalhadores do setor possuem, no máximo, o ensino médio completo, e apenas 7,8% têm ensino superior, em contraste com 13,9% na indústria de transformação.

A dificuldade de implementar técnicas de manufatura enxuta (lean manufacturing) nos canteiros esbarra diretamente na falta de conhecimento, segundo 40% dos entrevistados da pesquisa. Para um quarto deles, a falta de qualificação dos trabalhadores é determinante para implementar as técnicas modernas nos canteiros.

Para 50,5% dos entrevistados, a mesma falta de qualificação de mão de obra pode impactar a construção industrializada em segmentos como a construção de pré-fabricados de concreto.

O documento da CNI reforça que o salto de produtividade do Brasil depende ainda da migração do trabalho pesado e manual, nos canteiros, para fábricas controladas. Isso só será possível, na avaliação dos especialistas, se houver um grande esforço coletivo envolvendo governo, academia e Sistema S para treinar os profissionais no uso de novas tecnologias.

Construindo Conhecimento

Entre os dias 25 e 27 de agosto, o tema será discutido por especialistas durante a 5ª edição do Congresso Construindo Conhecimento, no Concrete Show, o maior evento da construção civil na América Latina.

O evento reúne painéis, palestras, workshops, atividades imersivas e certificações, além dos principais congressos e seminários promovidos por associações como Abesc, Abcic, Anapre e Ibracon, com curadoria exclusiva.