As fundações do Senna Tower já consumiram mais de 12 mil m3 de concreto, com 798 estacas, algumas delas com profundidade de 40 metros. Os números superlativos têm uma razão de ser: projetado para ser o edifício residencial mais alto do mundo, o prédio de Balneário Camboriú será uma referência em construção no Brasil e já é um modelo de gestão do fornecimento de concreto.
Se a etapa de fundações envolve uma logística afinada, o avanço da obra tende a exigir ainda mais dos envolvidos na construção, segundo o engenheiro Alberto Martins, diretor de Operações da Max Mohr, empresa especializada na produção de concreto usinado, argamassa estabilizada e materiais para construção civil.
O especialista está diretamente envolvido no empreendimento deu detalhes da construção do edifício durante o painel “Confiança e Inovação: a engenharia por trás do fornecimento de concreto do mega edifício em Balneário Camboriú“, durante o Concrete Show 2026, que aconteceu de 25 a 27 de agosto no Sp Expo.
Ele destacou que os desafios não envolvem apenas a entrega de uma mistura de concreto de qualidade e resistência, mas também um material flexível que deve ser transportado até grandes alturas, uma vez que o prédio terá cerca de 550 metros.
A logística também precisa acomodar etapas importantes no futuro como a gestão do sistema de resíduos que serão gerados e precisam ser retirados da construção. Outro controle preciso, que já acontece atualmente, é o do fluxo de entrega do concreto, por meio dos caminhões betoneiras no canteiro.
“Quanto mais a obra subir, mais difícil vai ser o controle do processo. Com as ferramentas disponibilizadas atualmente, o cliente consegue fazer o controle do fluxo e tomar muitas decisões”, resumiu Martins sobre os mecanismos usados na construção do prédio.
Rastreabilidade do concreto em todas as etapas
A diretora executiva da Talls Solutions e engenheira responsável pelo Senna Tower, Stéphane Domeneghini, também destaca o desafio logístico.
“A concretagem em um edifício com mais de 550 metros é uma disciplina de engenharia por si só. À medida que ganhamos altura, pressão de bombeamento, comportamento reológico do concreto, tempo de transporte, temperatura, velocidade de execução e confiabilidade dos equipamentos passam a ser variáveis críticas”, ressaltou em conversa com o Concrete Show Digital.
Ela explicou que o concreto, os equipamentos de bombeamento e o método executivo precisam ser desenvolvidos conjuntamente. Segundo ela, não se trata apenas de ter uma bomba mais potente, mas a formulação do concreto tem que permitir que ele percorra grandes alturas preservando suas características e sua capacidade de aplicação.
De acordo com Stéphane, o fornecimento também precisa estar conectado ao ritmo do canteiro. Uma interrupção ou uma sequência inadequada de caminhões em determinadas concretagens pode ter um impacto completamente diferente daquele observado em uma obra convencional.
Como as concretagens tendem a ser quase que diárias, a especialista destaca que qualquer falha pode colocar em xeque o planejamento da obra e impactar em larga escala o prazo, uma vez que não é possível ter turnos noturnos.
A executiva adianta que o empreendimento vai adotar uma estratégia rigorosa de rastreabilidade e controle tecnológico, desde a origem do concreto até sua aplicação e validação em campo.
“Alguns detalhes dos sistemas definitivos de bombeamento, rastreamento e instrumentação ainda fazem parte do desenvolvimento executivo e não considero tecnicamente adequado antecipá-los antes de sua consolidação. O que posso afirmar é que previsibilidade, rastreabilidade e controle de qualidade são premissas do processo”, explica Stéphane.
“Bombeabilidade” é um dos desafios
Sobre os tipos de concreto que devem ser usados na construção, ela adianta que são materiais de alta e altíssima performance para diferentes aplicações. A engenheira evita resumir as opções à ideia de “superconcreto”, porque pode transmitir a impressão de que existe uma única mistura excepcional utilizada em todo o prédio.
De acordo com ela, na prática, a engenharia é mais sofisticada: o concreto precisa ser otimizado para a função que desempenha e para a etapa em que será utilizado.
Nos níveis inferiores, por exemplo, com solicitações estruturais extremamente elevadas, na ordem de 100MPa e módulo de elasticidade de 55GPa, a obra utiliza concretos de maior desempenho para aumentar a capacidade resistente sem aumentar indefinidamente as dimensões de pilares e paredes.
“O FCK, que é a resistência característica à compressão do concreto, é apenas uma parte da equação. Em edifícios altos, precisamos avaliar com muito cuidado deformações de longo prazo, módulo de elasticidade, retração e fluência. E, à medida que a estrutura sobe, surge outro desafio fundamental: a “bombeabilidade”, explica.
Segundo a diretora executiva, não adianta desenvolver um concreto com resistência extraordinária em laboratório se ele não mantiver as propriedades necessárias durante transporte, bombeamento e lançamento a centenas de metros de altura. O desenvolvimento desses materiais envolve uma combinação de resistência, durabilidade, comportamento reológico, desempenho ao longo do tempo e construtibilidade.
Ela explica ainda que o maior desafio da obra até agora foram os três anos de pesquisa feitos pela Tall para atingir os patamares de 55GPa para o módulo de elasticidade do edifício, que é esbelto.
Equipe de mais de 50 consultores internacionais
O uso do concreto não é a única inovação do Senna Tower, que reúne as iniciativas da FG Empreendimentos, do grupo Havan e da família Senna. A governança de construção do prédio é singular para atender a complexidade da obra. Nesse processo, a Talls atua com uma lógica muito próxima à de um owner’s engineer, cujo papel é olhar o empreendimento pelo ponto de vista do proprietário e integrar estratégia estrutural, engenharia de valor, construtibilidade, desempenho, custo e risco.
Ao redor dessa estrutura foi reunido um ecossistema de especialistas brasileiros e internacionais. Entre os envolvidos estão Fatih Yalniz, com experiência em alguns dos edifícios mais complexos do mundo; Harry Poulos, referência internacional em geotecnia e fundações profundas; a RWDI nos estudos de vento; a Laufs especialista em esquadrias, além de projetistas, fornecedores e especialistas de diferentes áreas. São mais de 8 nacionalidades de mais de 50 projetistas.
“Mas existe uma diferença importante: não se pode terceirizar a inteligência do empreendimento para consultorias internacionais. O conhecimento global entra dentro de uma estrutura integrada de decisão liderada localmente, que conhece profundamente as limitações e realidade do contexto brasileiro”, explica Stéphane. “Nosso trabalho é transformar essa experiência internacional em uma solução efetivamente executável nas condições locais, o que é talvez o trabalho mais complexo do que “achar” consultorias”, complementa.
Muito além do BIM
Segundo ela, o BIM é uma base importante na construção do Senna Tower, mas o empreendimento precisa avançar além da modelagem geométrica. Na obra, os empreendedores trabalham com modelagem 4D, conectando o modelo digital ao cronograma e à sequência executiva. Isso transforma o modelo em uma ferramenta de planejamento e tomada de decisão.
Essa opção permite que se consiga simular etapas da construção, analisar interferências, estudar ciclos produtivos, antecipar necessidades de equipamentos e compreender como diferentes frentes disputarão espaço e recursos ao longo da obra.
Na avaliação de Stéphane, existe uma camada ainda mais importante, que é a integração de dados. A engenheira destaca o histórico de dados e aprendizado sobre como edifícios altos realmente se comportam depois de construídos.
“Acreditamos ser uma das poucas raras empresas do mundo com dados dessa relevância, porque normalmente empresas de consultoria não acompanham esses prédios de ponta-a-ponta, desde o conceito inicial para viabilidade até de fato anos de operação dos edifícios. E nós acompanhamos”, resume.
Em relação ao conceito de gêmeo digital, ela argumenta que o conceito verdadeiro não pode se resumir a um modelo 3D sofisticado, mas pressupor conexão entre o modelo digital e dados reais do ativo. Para Stéphane, a engenharia está caminhando para conectar progressivamente projeto, construção, instrumentação e operação, criando uma continuidade digital ao longo do ciclo de vida do edifício.
Inteligência em sustentabilidade
O Senna Tower também está sendo desenvolvido tendo como referência o LEED Platinum, nível máximo da certificação LEED. Isso envolve eficiência energética, uso racional de água, seleção de materiais, qualidade ambiental interna, desempenho dos sistemas e gestão dos impactos da construção.
Os empreendedores aplicam ainda o conceito de eficiência estrutural e construtiva. Isso significa utilizar materiais de maior desempenho para obter a mesma capacidade com menor consumo, reduzindo a intensidade material da estrutura. Em outras palavras: a engenharia de valor também é sustentabilidade quando elimina material desnecessário, retrabalho e soluções superdimensionadas, sem comprometer segurança ou desempenho.
O BIM e a modelagem 4D contribuem da mesma maneira. Antecipar digitalmente uma interferência evita correções, desperdício de materiais, horas de equipamentos e deslocamentos no canteiro.
“Diversas práticas já consolidadas dentro dos projetos da FG acabaram pontuando muito no LEED, o que não nos trouxe enorme dificuldades em pré-certificar, ao contrário, o contexto que o prédio está inserido também, com máximo aproveitamento urbano e contexto de curtas distâncias, fazem parte desse entendimento do LEED”, informa a diretora executiva.
De acordo com ela, a sustentabilidade do prédio pode ser analisada em três dimensões: desempenho durante a operação, eficiência na construção e durabilidade ao longo da vida útil. “Um edifício sustentável não é apenas aquele que consome menos energia. É aquele que utiliza inteligência para consumir melhor os recursos desde sua concepção”, resume.