A evolução das paredes de concreto no Brasil começa a alcançar uma nova fronteira: os edifícios altos. Depois de uma trajetória fortemente associada a empreendimentos de menor altura, o sistema construtivo já é aplicado em projetos que ultrapassam os 30 pavimentos. A mudança de escala, porém, traz novos desafios para a engenharia — especialmente quando o assunto são as instalações elétricas e hidrossanitárias. 

Esse foi um dos pontos discutidos no 5º Seminário ABESC de Paredes de Concreto para Prédios Altos, realizado durante o Congresso Construindo Conhecimento do Concrete Show.  

Sobre as interfaces entre instalações elétricas, hidrossanitárias e paredes de concreto, Cláudio Corrêa, fundador e CEO da DITEC Engenharia, ressaltou que a verticalização exige que as decisões de engenharia sejam antecipadas e estejam integradas ao processo construtivo desde a concepção do empreendimento. 

A experiência acumulada pelo engenheiro ao longo de décadas de atuação no setor mostra como essa integração se tornou determinante. Segundo Corrêa, a aplicação da tecnologia começou em edifícios mais baixos, passou por empreendimentos de até 16 pavimentos e agora chega a projetos que superam 30 andares.  

Nesse processo, as instalações deixam de ser apenas uma disciplina complementar e passam a influenciar diretamente a concepção do edifício. “Hoje, vocês estão chegando a mais de 30 andares. Então as coisas mudam dentro da parede de concreto”, pontuou. 

A principal mudança está na complexidade dos sistemas. Em edifícios altos, tanto as redes hidráulicas quanto as elétricas apresentam características diferentes das encontradas em construções de menor altura. Isso exige que shafts, prumadas, pontos de distribuição e caminhos das redes sejam definidos em conjunto com arquitetura e estrutura. 

Engenharia precisa entrar antes do projeto executivo 

Para Corrêa, um dos principais riscos está em deixar as instalações para uma etapa posterior, quando as decisões de arquitetura e estrutura já estão consolidadas. A lógica defendida no seminário é a de uma engenharia antecipada, capaz de avaliar o processo construtivo ainda na fase conceitual. 

“Não existe essa de pegar um projeto de arquitetura lançado. O ideal é que esteja tudo realmente resolvido: o processo construtivo, todos os projetos coordenados.” 

A lógica é particularmente relevante em sistemas industrializados, nos quais alterações posteriores podem comprometer produtividade, suprimentos e custos. A especificação dos materiais, a quantidade de circuitos, o posicionamento das caixas elétricas e o desenho das tubulações precisam considerar as limitações e características próprias da parede de concreto. 

Isso porque um projeto de instalações desenvolvido para alvenaria estrutural, drywall ou sistemas convencionais não pode simplesmente ser replicado em uma edificação de paredes de concreto. Cada tecnologia impõe restrições e oportunidades diferentes. 

“Cada obra tem um projeto de instalações. Ele se adapta ao processo construtivo.” 

A consequência é que a compatibilização deixa de ser apenas uma ferramenta para evitar interferências entre projetos. Passa a ser também um instrumento de racionalização da obra, capaz de eliminar materiais, etapas de execução e mão de obra sem comprometer o desempenho dos sistemas. 

Decisões de layout podem alterar o custo 

Um dos exemplos apresentados por Corrêa mostra como decisões tomadas ainda na arquitetura podem repercutir diretamente nas instalações. 

Em um dos projetos analisados, diferentes configurações para a localização das redes fizeram com que uma alternativa apresentasse custo e complexidade significativamente menores do que outra. A diferença estava na maneira como as redes eram conduzidas a partir dos shafts e conectadas à rede coletora. 

O caso ilustra uma questão recorrente em empreendimentos industrializados: um projeto pode estar adequado do ponto de vista arquitetônico e estrutural, mas ainda assim apresentar oportunidades de racionalização nas instalações. 

A mesma lógica aparece na distribuição dos pontos elétricos. Em um empreendimento citado durante a apresentação, a alteração da altura das tomadas para uma configuração padronizada resultou, segundo Corrêa, em redução de 40% no custo por apartamento. 

O ganho não veio de uma mudança tecnológica radical, mas da revisão de uma decisão de projeto considerando a produtividade proporcionada pelo sistema construtivo. 

Para grandes empreendimentos, nos quais plantas e soluções são repetidas centenas de vezes, pequenas alterações podem ganhar outra dimensão econômica. Uma redução de alguns metros de tubulação, por exemplo, multiplicada por centenas de unidades, pode representar quilômetros de material que deixam de ser adquiridos e instalados, segundo Côrrea. 

Industrialização leva as instalações para fora do canteiro 

A busca por produtividade também amplia o espaço para kits pré-fabricados de instalações. Soluções como kits elétricos e hidráulicos permitem que parte do trabalho seja transferida do canteiro para ambientes controlados de fabricação e montagem. 

No caso das instalações elétricas, Corrêa destacou a utilização dos chamados kits “polvo”, que podem ser produzidos previamente e levados à obra prontos para instalação. O conceito reduz operações manuais e ajuda a diminuir perdas de materiais. 

Segundo o engenheiro, a utilização dos kits pode representar economia de até 20% em fios e cabos, considerando perdas associadas à execução convencional da circuitação. 

O mesmo princípio pode ser aplicado às instalações hidráulicas. Prumadas pré-montadas, componentes pré-fabricados e soluções para shafts permitem reduzir etapas executadas diretamente no canteiro e aumentar a previsibilidade do processo. 

A industrialização, entretanto, não elimina a necessidade de engenharia. Ao contrário: aumenta a importância do projeto que antecede a fabricação. 

“A espinha dorsal tem que estar aqui. O projeto vai ser detalhado pelo fabricante do kit, mas a engenharia precisa definir as diretrizes”, explicou. 

Essa distinção é relevante para construtoras que buscam ampliar a industrialização. A simples contratação de um fornecedor de kits não garante o ganho de produtividade se o produto for desenvolvido a partir de um projeto que não considera as características específicas da parede de concreto. 

Racionalização também passa por prumadas e shafts 

Outro campo de oportunidade está na quantidade e no posicionamento de prumadas. O excesso de redes pode gerar não apenas maior consumo de materiais, mas também mais interferências no embasamento, na fundação e nas áreas técnicas. 

Em um dos exemplos apresentados, a revisão das redes permitiu eliminar uma tubulação que se repetia em um empreendimento com 430 unidades do mesmo projeto. A retirada de aproximadamente três metros de tubulação por repetição representaria, segundo a análise apresentada, cerca de 1,5 quilômetro de material eliminado. 

O raciocínio se aplica também aos shafts. Em determinadas situações, uma solução arquitetônica inadequada pode transferir para o pavimento térreo uma série de redes que precisam ser deslocadas horizontalmente até alcançar a rede coletora. 

Quanto mais cedo essa questão for identificada, maior a possibilidade de corrigir o layout sem criar soluções complexas durante a execução. 

A discussão também envolve a definição dos locais que efetivamente precisam ser executados em parede de concreto. Shafts e determinadas áreas hidráulicas podem, dependendo do projeto, ser resolvidos com drywall, permitindo a instalação de componentes previamente montados sem interferir diretamente na estrutura. 

Especialização passa a ser um diferencial 

Com a expansão da tecnologia para edifícios mais altos e empreendimentos mais complexos, outro ponto ganha relevância: a necessidade de profissionais que conheçam as particularidades do sistema. 

A experiência acumulada em projetos convencionais não significa, necessariamente, domínio das soluções aplicáveis às paredes de concreto. Segundo Corrêa, um dos erros recorrentes é assumir que um projeto desenvolvido para outra tecnologia construtiva pode ser simplesmente adaptado. 

“Você pode contratar um projetista que é top no mercado, mas ele não entende nada de parede de concreto. Você vai cair numa furada”, enfatizou. 

A especialização, nesse contexto, não está restrita ao conhecimento das instalações. Envolve compreender a relação entre projeto, forma, concretagem, logística, suprimentos, industrialização e sequência executiva. 

Para o executivo da construção, o ponto central é que a decisão sobre instalações deixa de ser exclusivamente técnica. Ela passa a interferir diretamente na economia do empreendimento e na capacidade de industrialização do canteiro. 

Da parede de concreto à construção industrializada 

A discussão apresentada no 5º Seminário ABESC mostra que o avanço das paredes de concreto para prédios altos não representa apenas uma ampliação de escala. Ele exige uma mudança na forma de projetar e gerir o empreendimento. 

Quanto maior o número de pavimentos e a repetição das unidades, maior é o impacto de decisões aparentemente pequenas: alguns centímetros na posição de uma tomada, metros de tubulação eliminados, uma prumada racionalizada ou um shaft redesenhado podem se transformar em ganhos relevantes quando multiplicados por centenas de apartamentos. 

Nesse cenário, a produtividade deixa de depender apenas da velocidade de execução da parede de concreto. Ela começa muito antes do canteiro, na integração entre arquitetura, estrutura, instalações, suprimentos e planejamento. 

A expansão da tecnologia para edifícios altos, portanto, coloca uma nova exigência para a cadeia construtiva: industrializar não significa apenas construir mais rápido, mas tomar melhores decisões antes de construir.