Com um déficit habitacional de aproximadamente 5,77 milhões de moradias, o Brasil enfrenta um dos mais urgentes desafios sociais, que afeta sobretudo as famílias de baixa renda. Esse cenário será o foco do painel de abertura do Concrete Show, evento que reúne os principais nomes da construção civil. À frente do debate estará Inês Magalhães, vice-presidente de Habitação da Caixa Econômica Federal, que apresentará as estratégias e iniciativas da instituição para enfrentar essa realidade e ampliar o acesso à moradia digna no país.

Em entrevista exclusiva ao Concrete Show Digital, Inês ressaltou a importância da participação da Caixa no evento, destacando o impacto positivo do setor habitacional no desenvolvimento do país. Investir em habitação é investir simultaneamente em crescimento econômico, inclusão social e construção de cidades mais sustentáveis”, afirmou. Segundo ela, a integração entre políticas públicas, financiamento habitacional e capacidade de execução é fundamental para reduzir o déficit habitacional e promover a expansão urbana de forma inclusiva e sustentável.

Para a especialista, o mercado habitacional brasileiro mantém uma demanda estrutural relevante por moradia e continua demonstrando resiliência, mesmo em um cenário de juros elevados. “Em 2026, a Caixa segue como líder do setor, com 67,74% de participação na carteira habitacional Pessoa Física, contribuindo para a ampliação do acesso ao crédito e para o crescimento da produção habitacional. Diante dessa realidade, os principais desafios para os próximos anos são diversificar as fontes de funding, ampliar a produtividade do setor e manter a expansão da oferta de moradias para atender às necessidades da população brasileira”, explica.

Inês destacou cinco frentes prioritárias que podem impulsionar avanços significativos na redução desse problema.

  • Financiamento sustentável de longo prazo

Uma das principais estratégias apontadas pela especialista é a necessidade de garantir fontes de financiamento de longo prazo. “O Brasil estruturou seu crédito imobiliário principalmente com recursos da poupança e do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), mas a demanda por moradia cresce em ritmo superior à expansão dessas fontes”, explicou. Para complementar o modelo tradicional, ela defende a ampliação da participação de instrumentos de mercado, como LCI (Letra de Crédito Imobiliário), LIG (Letra Imobiliária Garantida) e CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários), que podem dar escala ao financiamento habitacional.

Ao diversificar as fontes de funding, esses instrumentos complementam os recursos tradicionais, como os provenientes da poupança e do FGTS, permitindo maior escala e sustentabilidade ao crédito habitacional no Brasil.

  • Produtividade na construção civil

Outro ponto fundamental é aumentar a produtividade na produção habitacional. “O país precisa produzir mais moradias, mas também construir de forma mais eficiente”, afirmou. Para Inês, a industrialização da construção, métodos construtivos inovadores, digitalização de processos e redução de gargalos regulatórios são medidas que podem diminuir custos, reduzir prazos e ampliar a oferta de habitação em diferentes segmentos de renda.

    • Custo da moradia e acesso ao crédito

    Inês também destacou que o custo da moradia tem influência direta no déficit habitacional atual. “Ampliar o acesso ao crédito, estimular a oferta de moradias bem localizadas e fortalecer alternativas habitacionais adequadas são tão importantes quanto a construção de novas unidades”, diz.

    • Melhoria do estoque habitacional

    Além de construir novas moradias, é essencial investir na melhoria das condições das habitações já existentes. “Uma parcela relevante das necessidades habitacionais do país está relacionada à inadequação das moradias, seja por questões construtivas, de infraestrutura ou habitabilidade”, explicou. Investimentos em requalificação urbana, regularização fundiária e recuperação de áreas ocupadas podem gerar resultados mais rápidos e eficientes.

    • Integração entre agentes do setor

    Por fim, Inês enfatizou a importância de fortalecer a integração entre o setor financeiro, construção civil, investidores, governos e mercado imobiliário. “A experiência internacional mostra que os países que avançaram de forma mais consistente na redução de suas necessidades habitacionais combinaram crédito, subsídios focalizados, desenvolvimento do mercado de capitais, segurança jurídica e aumento da oferta imobiliária”, complementou.

    • Juros elevados e os desafios do financiamento habitacional no Brasil

    Segundo a executiva, a principal dificuldade está em garantir fontes de financiamento de longo prazo que sejam compatíveis com operações de 20, 30 ou até 35 anos. “A habitação possui uma característica particular: o prazo do crédito é muito longo, enquanto parte relevante das fontes de captação da economia tem horizonte mais curto e pode ser influenciada pelas condições macroeconômicas”, explicou.

    Além do custo do dinheiro, outros fatores como inflação, renda das famílias e disponibilidade de funding afetam diretamente a capacidade de contratação de crédito.

    Para sustentar o crescimento do financiamento habitacional, Inês apontou a diversificação das fontes de recursos como uma estratégia essencial. “A poupança continua exercendo um papel relevante, mas é cada vez mais importante ampliar a participação de instrumentos de mercado capazes de complementar essa fonte”, disse. Soluções como LCI, LIG e CRI podem ajudar a sustentar o financiamento imobiliário no longo prazo.

    Para a especialista, o desafio não é apenas ampliar o volume de recursos disponíveis, mas assegurar que esses recursos tenham prazo e custo compatíveis com o financiamento habitacional. “É essencial preservar o acesso das famílias à moradia e garantir a sustentabilidade do sistema no longo prazo”, concluiu.

    O papel da Caixa Econômica Federal

    A Caixa desempenha uma função estratégica na cadeia habitacional do Brasil, atuando desde o financiamento à produção de empreendimentos até o crédito às famílias e a gestão de recursos destinados ao setor.

    Segundo Inês, para os próximos anos, a instituição aposta em uma combinação de iniciativas para enfrentar os desafios habitacionais. Entre as prioridades estão a diversificação das fontes de financiamento de longo prazo, a digitalização dos processos de contratação e a modernização dos registros imobiliários. “A integração entre os diversos agentes do mercado e o desenvolvimento de soluções mais aderentes às necessidades das famílias são fundamentais para ampliar o alcance do crédito habitacional”, enfatiza.

    O avanço tecnológico e a simplificação da jornada do cliente também fazem parte das estratégias para aumentar a eficiência do sistema habitacional, reduzindo custos e prazos, além de facilitar o acesso ao financiamento. “Quanto mais eficiente for o sistema, maior será a capacidade de atender às demandas habitacionais de forma sustentável. Processos mais digitais, integração entre os diversos agentes do mercado e redução de custos operacionais são fundamentais”, afirma a palestrante.

    Crise global de moradia

    A crise habitacional é um desafio global, mas no Brasil ela ganha contornos particulares, marcados pelas dimensões continentais do território, pela diversidade regional e pela concentração do déficit habitacional entre as famílias de menor renda.

    De acordo com a especialista, para enfrentar esse cenário complexo, o país dispõe de uma política habitacional consolidada, respaldada por instrumentos legais e urbanísticos robustos, além de programas que integram crédito, subsídios e a participação ativa do setor privado.

    Para Inês, a integração entre políticas públicas, financiamento habitacional e capacidade de execução é a chave para ampliar o acesso à moradia e impulsionar o desenvolvimento urbano no Brasil. Nesse cenário, a Caixa Econômica assume um papel estratégico ao viabilizar programas habitacionais e oferecer linhas de crédito ajustadas às diferentes necessidades das famílias brasileiras.

    “O avanço na redução do déficit habitacional exige a continuidade de políticas de longo prazo, o fortalecimento do financiamento, a ampliação da oferta de moradias adequadas e a integração entre habitação, infraestrutura, mobilidade e desenvolvimento urbano”, acrescenta.

    Exemplos internacionais que inspiram o Brasil

    Embora não exista um modelo único para resolver os desafios habitacionais, a experiência internacional oferece lições valiosas que podem ser adaptadas à realidade brasileira. Os casos mais bem-sucedidos combinam diferentes instrumentos, como financiamento habitacional de longo prazo, desenvolvimento do mercado de capitais, ampliação da oferta de moradias e integração entre habitação, infraestrutura e planejamento urbano.

    Em diversos países, observa-se um esforço crescente para diversificar as fontes de funding da habitação, reduzindo a dependência de uma única fonte de recursos e ampliando a participação de investidores institucionais e instrumentos de mercado de longo prazo. Essa abordagem tem ganhado relevância no Brasil, diante da necessidade de sustentar a expansão do crédito habitacional nos próximos anos.

    A produtividade na construção civil também gera resultados positivos. Países que avançaram na industrialização da construção, na adoção de métodos construtivos inovadores e na digitalização de processos conseguiram reduzir prazos, aumentar escala e melhorar a eficiência na produção habitacional. “A industrialização da construção e a digitalização são caminhos indispensáveis para ampliar a oferta de moradias e reduzir custos”, afirma Inês.

    Além disso, há experiências relevantes relacionadas à requalificação urbana e ao aproveitamento mais eficiente da infraestrutura existente. Em grandes centros urbanos, a solução habitacional nem sempre está na expansão das cidades, mas na recuperação de áreas consolidadas e na aproximação entre moradia, emprego, transporte e serviços.

    “Adaptar as cidades às transformações demográficas e climáticas é essencial para garantir moradias dignas e sustentáveis”, complementa.

    Concrete Show e o futuro da habitação no Brasil

    O Concrete Show, evento que reúne os principais agentes da cadeia da construção civil, representa um espaço estratégico para discutir o futuro da habitação no Brasil. Segundo a palestrante, a construção civil desempenha um papel decisivo na geração de emprego, renda, investimentos e desenvolvimento regional, além de ser uma das principais alavancas para a redução do déficit habitacional.

    “Participar desse debate permite aproximar inovação, tecnologia, sustentabilidade, financiamento e política pública, fortalecendo um setor que vem apresentando resultados expressivos e contribuindo diretamente para a melhoria da qualidade de vida da população”, afirma Inês.

    Para ela, o Concrete Show não é apenas um espaço de troca de ideias, mas também um ponto de convergência entre os diversos agentes do mercado habitacional. “É aqui que podemos alinhar estratégias, compartilhar boas práticas e avançar em soluções que atendam às necessidades habitacionais do país, sempre com foco na sustentabilidade e na inovação”, conclui.