O fenômeno climático El Niño, que ocorre devido ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, tem efeitos diretos sobre o clima e, consequentemente, sobre o setor da construção civil. As alterações nos padrões climáticos provocadas pelo El Niño podem gerar desafios significativos para obras em andamento e para o planejamento de novos projetos.
Em regiões onde o El Niño intensifica as chuvas, os canteiros de obras enfrentam dificuldades como terrenos encharcados, atrasos no cronograma e riscos de erosão e deslizamentos de terra. Por outro lado, em áreas afetadas pela seca, o abastecimento de água para atividades essenciais, como a mistura de concreto, pode ser comprometido, além de aumentar o risco de incêndios em locais de trabalho.
Os impactos também se estendem aos materiais de construção. A umidade elevada pode prejudicar a qualidade de materiais como madeira e drywall, enquanto a falta de água pode dificultar o processo de cura do concreto, exigindo adaptações nos métodos de trabalho.
Para enfrentar esses desafios, empresas do setor precisam investir em planejamento e gestão de riscos. Monitorar as previsões climáticas, reforçar sistemas de drenagem e proteger materiais contra condições adversas são algumas das medidas que podem minimizar os prejuízos. Além disso, é fundamental ajustar cronogramas e processos para garantir a continuidade das obras mesmo diante de condições climáticas extremas.
Apesar das dificuldades, o El Niño também pode abrir oportunidades para o setor. A demanda por obras de infraestrutura mais resilientes e adaptadas a eventos climáticos extremos tende a crescer, impulsionando o uso de tecnologias avançadas e soluções sustentáveis.
Mudanças climáticas transformam o clima em fator estratégico para empresas brasileiras
O aumento das temperaturas já afeta diretamente os custos operacionais de edifícios, amplia o consumo de energia, exige o uso de novos materiais e influencia a competitividade das empresas brasileiras em mercados internacionais. Para especialistas, o clima deixou de ser apenas uma variável ambiental e passou a ser um fator econômico e estratégico, com impactos profundos na gestão empresarial.
Felipe Fogaça, especialista em internacionalização de negócios e no corredor Brasil-Europa, destaca que os efeitos das mudanças climáticas já estão inseridos na gestão financeira das empresas e devem influenciar cada vez mais decisões no mercado imobiliário e na construção civil.
“O clima deixou de ser uma variável externa e virou uma linha dentro do balanço. Há dois tipos de impacto que toda empresa precisa separar. O primeiro é o risco físico: ondas de calor reduzem a produtividade, encarecem a energia, interrompem cadeias de suprimentos e elevam o custo de seguros. O segundo é o risco de transição: mudanças na regulação, precificação de carbono e novas exigências dos clientes. O erro mais comum é tratar isso como um evento pontual, quando, na prática, é um custo estrutural e recorrente”, explica Fogaça.
Empreendimentos que conseguem reduzir o consumo energético, utilizar fontes renováveis e apresentar menor pegada de carbono tendem a se destacar em um mercado que já começa a exigir indicadores ambientais mais rigorosos.
“A adaptação deixa de ser custo e passa a representar posicionamento. A empresa que mede, comprova e comunica sua eficiência climática ganha preferência de compradores que hoje já exigem esse dado. Quem sair na frente captura essa vantagem antes que ela vire apenas o mínimo esperado”, explica o especialista.
Edificações brasileiras ainda seguem padrões climáticos ultrapassados
Apesar de o tema das mudanças climáticas estar cada vez mais presente nas discussões sobre sustentabilidade, grande parte das edificações no Brasil continua sendo projetada com parâmetros técnicos baseados em uma realidade climática que já não corresponde à atual.
Victor Henriques, engenheiro civil e CEO da Help Reformas e Construções, alerta que o país ainda está longe de possuir um parque imobiliário preparado para enfrentar os desafios impostos por períodos prolongados de calor extremo.
“A resposta é não. A maioria das edificações brasileiras foi projetada com base em padrões climáticos históricos que não refletem a intensidade e a frequência dos eventos extremos que observamos atualmente. Nossas normas técnicas foram estabelecidas há mais de uma década e não incorporam adequadamente os cenários de aquecimento global”, explica Henriques.
Esse problema é ainda mais evidente nas habitações populares, que frequentemente utilizam materiais de baixo desempenho térmico e apresentam pouca ventilação natural.
“Construções residenciais populares são extremamente vulneráveis. Muitas utilizam materiais de baixa inércia térmica, isolamento inadequado e sistemas de ventilação passiva insuficientes. Já os edifícios comerciais dependem cada vez mais do ar-condicionado, o que eleva significativamente o consumo de energia”, destaca o engenheiro.
Henriques defende que o setor da construção civil precisa abandonar soluções exclusivamente mecânicas, como o uso intensivo de sistemas de climatização, e investir em estratégias passivas de conforto ambiental.
“O setor precisa revisar projetos, especificações de materiais e estratégias de climatização para antecipar cenários de temperaturas mais altas e períodos de calor prolongado”, afirma.
Especialistas apontam que a arquitetura bioclimática, antes vista como tendência, agora se torna uma necessidade. Soluções como ventilação cruzada, isolamento térmico em coberturas, brises, fachadas protegidas da radiação solar, vidros de controle térmico, coberturas refletivas, paisagismo integrado e o correto posicionamento das edificações podem reduzir significativamente a temperatura interna dos imóveis sem aumentar o consumo energético.
A escolha dos materiais adequados também faz parte do processo. “Materiais escuros, concreto exposto sem isolamento e telhas cerâmicas acumulam calor e mantêm os ambientes aquecidos por mais tempo. Em contrapartida, coberturas metálicas com isolamento termoacústico, vidros de controle solar, materiais refletivos e isolantes térmicos reduzem significativamente a absorção de calor”, explica Henriques.
Segundo ele, a combinação entre soluções arquitetônicas e materiais adequados oferece resultados muito superiores ao simples aumento da capacidade dos equipamentos de climatização.
Adaptação climática exige mudanças no desenho urbano
A discussão sobre adaptação climática também passa pelo planejamento das cidades. Ruas excessivamente asfaltadas, pouca arborização, impermeabilização do solo e elevada densidade construtiva favorecem a formação das chamadas ilhas de calor, fenômeno que pode elevar a temperatura urbana em vários graus em comparação às áreas vegetadas.
Victor Henriques, engenheiro civil, destaca que o planejamento urbano precisa ser tratado como parte da estratégia climática.
“Cidades densas, com pouca vegetação e muitas superfícies impermeáveis criam ilhas de calor. O investimento em arborização urbana, pavimentos permeáveis, corredores verdes e espaços abertos melhora o conforto térmico coletivo e reduz os impactos das temperaturas extremas”, afirma Henriques.
Cidades esponja: um novo paradigma urbano
Essa mudança de paradigma também aparece no conceito das chamadas “cidades esponja”, modelo que vem sendo adotado em países como China, Dinamarca e Singapura. A proposta consiste em substituir parte da infraestrutura tradicional por soluções baseadas na natureza, permitindo que o solo absorva, retenha e reutilize a água das chuvas.
Segundo o arquiteto Cássio Ferraz, o conceito representa uma ruptura com o modelo urbano predominante no último século.
“Na prática, é o oposto da cidade que construímos no último século. Em vez de criar um escudo de concreto e asfalto para tentar expulsar a água da chuva o mais rápido possível, a cidade esponja faz o contrário: ela abraça a água. A ideia é desenhar o espaço urbano para que ele consiga reter, infiltrar e limpar a água da chuva no próprio local onde ela cai, usando a própria natureza como infraestrutura”, explica Ferraz.
Ele alerta que a impermeabilização excessiva tornou as cidades mais vulneráveis aos eventos extremos.
“Quando você pavimenta uma cidade inteira, canaliza rios e elimina a vegetação, a água não tem para onde ir. Toda a chuva que cai vira escoamento superficial imediato”, afirma.
Na avaliação do arquiteto, adaptar o desenho urbano tornou-se uma necessidade diante da nova realidade climática.
“O regime de chuvas mudou, e o modelo antigo de cidade faliu diante dessa nova realidade. Não dá mais para planejar olhando para o retrovisor. Mudar o desenho urbano para o modelo esponja não é mais uma escolha estética ou ecológica, é uma questão de sobrevivência urbana.”
Sustentabilidade como ativo estratégico
A crescente adoção de critérios ESG (ambientais, sociais e de governança) e a implementação de mecanismos internacionais de precificação de carbono estão transformando a eficiência energética, a arquitetura bioclimática e a infraestrutura resiliente em ativos estratégicos indispensáveis para empresas e projetos.
Felipe Fogaça, especialista em internacionalização de negócios, destaca que mercados como o europeu já condicionam parte das relações comerciais ao desempenho ambiental das empresas.
“A sustentabilidade deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ser uma condição de competitividade. Eficiência energética, baixo carbono e inovação hoje fazem parte da mesma conversa”, afirma Fogaça.
Com a intensificação do fenômeno El Niño e as projeções de aumento na frequência de eventos climáticos extremos, a principal questão não é mais se a construção civil precisará mudar, mas em que velocidade conseguirá adaptar seus projetos, suas cidades e seus modelos construtivos para uma realidade que já está em curso.