A tokenização na indústria da construção civil é uma das fronteiras tecnológicas promissoras para a garantia de qualidade, que gera avanços significativos para a garantia de qualidade, segurança jurídica e rastreabilidade no setor. Essa tecnologia, que transforma informações físicas em tokens seguros processados na blockchain, também facilita a captação de recursos para o canteiro de obras (funding), permitindo que projetos sejam financiados de forma mais ágil e transparente.

Para entender melhor o impacto dessa inovação, o Concrete Show Digital entrevistou Márcio Teixeira, CEO da MConsult Engenharia. Segundo Márcio, a tokenização oferece benefícios importantes, como a segurança na validação de pagamentos por meio de contratos inteligentes (smart contracts). “Esses contratos automatizam transações e garantem que os recursos sejam liberados apenas quando as condições previamente acordadas forem cumpridas, reduzindo riscos de fraudes e atrasos e aumentando a confiança entre os participantes da cadeia de suprimentos”, explica.

Além de modernizar a gestão de projetos, a tokenização cria um ecossistema mais transparente e colaborativo, onde todos os envolvidos — desde investidores até fornecedores e construtoras — podem acompanhar o progresso e os resultados de forma clara e segura.

Outro benefício importante é a democratização do investimento fracionado, que permite que o público geral participe de empreendimentos imobiliários e de infraestrutura, antes restritos a grandes investidores. “Com a tokenização, ativos como terrenos e edificações podem ser divididos em frações digitais, ampliando o acesso ao mercado”, reforça Teixeira.

No entanto, o especialista destaca que o grande desafio está na automação da inserção do imenso volume de dados do mundo físico para o token. “Esse é o principal obstáculo operacional que os engenheiros de dados enfrentam atualmente”, afirma. Para superar essa barreira, são utilizados sensores IoT, inteligência artificial e processamento de linguagem natural (PLN), sempre com supervisão humana para garantir a precisão e a confiabilidade do processo.

Confira a entrevista completa com Márcio Teixeira, CEO da MConsult Engenharia, que detalha como a transformação de informações físicas em tokens seguros, processados na blockchain, tem o potencial de revolucionar a cadeia de suprimentos na construção civil.

Como podemos entender a tokenização aplicada à construção civil?

Márcio Teixeira: O token nada mais é do que uma informação gerada de forma confiável e segura em um ambiente criptografado, como a blockchain. Essa informação é acessível somente para quem possui a chave de criptografia, permitindo que o setor trabalhe com mais segurança, automatização, por meio de contratos inteligentes, e maior agilidade nas negociações. A indústria de construção busca essa ferramenta porque a estrutura de token na blockchain confere rastreabilidade, inclusive identificando a autoria de quem alterou os dados de arquivo, ou seja, existe uma garantia de segurança jurídica dos registros de obra.

Com tantos dados, como operacionalizar a geração de tokens?

Márcio Teixeira: O volume de fluxo de dados é de fato um obstáculo de operação. A produção de um lote de concreto, por exemplo, demanda a geração de token na usina. A inserção de dados por operadores humanos, nesse caso, gera um esforço operacional grande o suficiente para desincentivar a utilização. A solução são contratos inteligentes que, a partir de ontologias (modelos) que podem ser geradas por inteligências artificiais com utilização de PLN, editam regras de recebimento de suprimentos, como os limites de aceitação de slump conforme a norma. O desafio é que a aplicação de regras encontra barreira de divergência de sistemas entre concreteiras e empresas de incorporação e de construção.

E essa barreira pode ser resolvida?

Márcio Teixeira: Atualmente os engenheiros de dados buscam a utilização de modelos de programação e de processamento de linguagem natural (área da IA e da ciência da computação que ajuda os computadores a entender, interpretar e criar a linguagem humana) para o desenvolvimento de regras de contratos inteligentes, por meio de leituras de normas técnicas, regras contratuais (contratos jurídicos) e outros. A ferramenta de PLN executa a leitura de manuais de normas técnicas e gera a ontologia que é aplicada ao smart contract. Diante de alterações em normas de engenharia ou contratos de fornecimento, a PLN reestrutura a regra do contrato inteligente de forma automática. Tudo com supervisão humana.

Qual o impacto da tokenização na rastreabilidade e na logística da cadeia de suprimentos?

Márcio Teixeira: Ela gera a rastreabilidade de forma segura. A entrada de um lote de cimento usina de concreto, por exemplo, gera registro em token. A mistura de cimento no traço de concreto de betoneira atualiza os dados do token. A saída de caminhão de usina e a chegada em canteiro de obra geram atualizações de registro de horário. A integração de equipamentos de sensores de dados com o token automatiza a alimentação de relatórios. Já os sensores de aferição de temperatura na betoneira verificam limites de calor de mistura. Se as temperaturas estão acima de limites de controle, isso pode indicar a ocorrência de início de pega de cimento. A chegada de caminhão na obra, por sua vez, permite o envio de dados de medição do sensor para o token, com validação de recebimento sem necessidade de intervenção humana, entre outras iniciativas.

Qual é a dificuldade de integrar, por exemplo, o rastreamento de agregados minerais?

Márcio Teixeira: O esforço de operação de inserção de dados para o token representa a barreira de uso de tecnologia. A separação das britas em lotes de produção nos pátios das pedreiras atende regras de certificação de selo ISO. A conversão de dado de um ativo material para meio de virtualização exige interligação de sistemas de empresas. O problema é que os sistemas de operação de pedreiras podem divergir dos sistemas de usinas de produção de concreto. A digitação de dados de extração de lotes por operadores manuais pode ser demorada reduzindo o ritmo produtivo necessário nas pedreiras.

Por que os contratos inteligentes podem facilitar esse processo?

Márcio Teixeira: Eles são um sistema de código de regras lógicas de programação de causa e de consequência. Com eles, podemos aplicar regras de contexto técnico de engenharia e regras de contexto legal de fornecimento. Ao usarem modelos de IA de processamento de linguagem natural pode-se gerar uma ontologia. Combinados com grafos de conhecimento (estrutura de dados que organiza e conecta informações do mundo real), é possível gerar regras boleanas (com apenas dois valores, tipo falso e verdadeiro) para os contratos inteligentes. Esse conjunto de ferramentas podem gerar a “tradução” do que está sendo sensorizado com as regras de contrato e validar ou não a condição em qualquer etapa da cadeia produtiva. O esforço humano passa a ser dedicado à validação dessas regras e à produção de obra, efetivamente, em vez de gerar papéis em silos de informação difíceis de rastrear.

A tokenização também ajuda no fluxo de operações financeiras?

Márcio Teixeira: Sim. O contrato inteligente armazena regras de liberação de pagamentos de suprimentos. O cumprimento das regras estabelecidas no contrato inteligente permite a aprovação de documento de medição da concreteira, entre outros recursos. Se há uma sensorização das operações, o gestor de cadeia de suprimentos poder abrir a interface de token, verificar os dados de validação de entrega e liberar o pagamento.

Como o setor pode usar a tokenização de dados junto com outros sistemas?

Márcio Teixeira: Um exemplo é a interação do banco de dados com os gêmeos digitais, que espelham a realidade física da obra. A possível ocorrência de trincas em estruturas de concreto após anos de construção pode ser melhor investigada com esse compartilhamento de dados dos ativos tokenizados. O sistema utiliza o dado de origem de token para rastrear o lote de concreto aplicado na área de ocorrência de trinca de estrutura. A investigação determina falhas de processo de execução de trabalhadores ou problemas de recebimento de material de usina.

Existem aplicações reais de tokenização na indústria de concreto?

Márcio Teixeira: As pesquisas de adoção de tokens em concreto de moldagem in loco, por exemplo, encontram-se em estágio de teste de simulação em ambiente controlado. Artigos de pesquisa em bases de dados confiáveis, como Schopus e Web of Science, incluindo pesquisas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), demonstram validações de prova de conceito da tecnologia em recortes de cinco anos. O trabalho de demonstração em laboratório ou ambiente de simulação de obra exige operadores com dedicação de exclusividade em estações de computador para alimentação de dados do token, o que é um dos desafios atuais.

O painel Tokenização do concreto: como a digitalização contribui com o controle de qualidade e tecnológico, faz parte da programação do Congresso Construindo Conhecimento do Concrete Show, e acontece no dia 27 de agosto, no Palco 2 do evento.