Garantir que o concreto especificado em projeto seja exatamente o mesmo entregue e aplicado na obra continua sendo um dos desafios da construção civil. Em um setor onde disputas técnicas podem surgir anos após a conclusão de um empreendimento, a rastreabilidade das informações ganha importância para assegurar qualidade, transparência e segurança jurídica.

A digitalização dos processos e o uso de tecnologias como blockchain, inteligência artificial e rastreabilidade digital despontam como alternativas para enfrentar esse desafio. O tema estará em pauta no “Construindo Conhecimento”, congresso oficial do Concrete Show, evento realizado de 25 a 27 de agosto, no São Paulo Expo. 

Em sua 17ª edição, o Concrete Show reunirá mais de 450 marcas e espera receber mais de 26 mil profissionais da construção civil. Entre as empresas que participam do evento estão: Gerdau, Zoomlion, Putzmeister, Schwing-Stetter, ArcelorMittal, Viapol, Schnell, Âncora, Aço Verde do Brasil, Convicta, Siti, Petrotec, Camargo Química, Prefab, Aditibras, Saur Equipamentos,  Volkswagen, XCMG, Yanmar, Liebherr e Votorantim. 

Ativo digital rastreável

No congresso, a proposta é mostrar como o concreto pode deixar de ser apenas um material físico para se tornar um ativo digital rastreável, reunindo em um único registro todas as informações relacionadas ao seu ciclo de vida. Com dados transparentes e imutáveis, a expectativa é reduzir falhas de especificação, melhorar o controle tecnológico e garantir que o material entregue corresponda ao que foi projetado.

“A maioria dos conflitos no setor ocorre anos após a execução do projeto”, diz um dos painelistas do evento, o engenheiro civil e CEO e sócio-diretor da Construtivo, Marcus Vinícius Granadeiro. “Para tratá-los de forma adequada, é fundamental ter acesso à informação com garantia de qualidade e veracidade. Tecnologias como tokenização e blockchain ajudam justamente nesse ponto, oferecendo uma forma simples, eficaz e permanente de rastreabilidade e armazenamento dos dados”, detalha.

Para Granadeiro, a digitalização também potencializa outras tecnologias que já avançam na construção civil, como o BIM (Building Information Modeling) e a inteligência artificial. “O BIM define com precisão os requisitos técnicos e a localização de cada elemento da obra. Quando essas informações são associadas ao ‘RG’ digital do concreto, torna-se possível automatizar processos de controle de qualidade, validações técnicas e até aplicações relacionadas ao monitoramento da pegada de carbono”, explica Granadeiro.

Na prática, a centralização das informações em um registro único pode reduzir erros de comunicação entre projetistas, concreteiras, construtoras e contratantes, além de facilitar auditorias e comprovações futuras.

“Para quem já trabalha corretamente, a digitalização não muda a forma de executar a obra. O ganho está na garantia da qualidade. Eventuais desvios e execuções fora das normas passam a ser identificados com muito mais facilidade”, afirma.

Para a CEO da CONTECH Controle Tecnológico, Francielle Diemer, a proposta do chamado “RG” digital do concreto é integrar, em um único registro, todas as informações geradas desde a produção até a aplicação do material na estrutura. 

O histórico começa na usina, com dados como traço, volume e horário de saída do caminhão-betoneira, e acompanha todo o processo até a obra. Sensores instalados nos caminhões e embarcados no próprio concreto permitem registrar informações em tempo real, vinculadas ao mesmo elemento estrutural, criando uma rastreabilidade contínua durante todo o ciclo de execução.

“Quando cada etapa registra sua entrega em tempo real, em um sistema que todos enxergam e ninguém consegue reescrever, a não conformidade deixa de ser descoberta tarde — ela fica visível no momento em que acontece. No Brasil, a digitalização do controle tecnológico do concreto é inevitável. As grandes obras de infraestrutura e os empreendimentos com financiamento institucional já sentem essa pressão, e o laboratório de controle tecnológico é o ponto de partida natural dessa mudança, porque é ele que detém o dado sensível que aprova ou reprova na origem”, afirma.

A especialista destaca ainda que esse modelo pode transformar a forma como os diferentes agentes da cadeia da construção compartilham responsabilidades e comprovam a qualidade dos materiais empregados.

“Ter os materiais empregados no concreto rastreáveis, com fornecedores e laboratórios registrando suas informações em um único sistema verificável, transforma a lógica do setor. A construtora ganha proteção em casos judiciais, a concreteira passa a oferecer um diferencial competitivo, o laboratório entrega mais transparência e confiabilidade, e quem financia ou adquire o imóvel passa a ter condições de auditar a qualidade do material que compõe aquele ativo”, explica.

Além de Granadeiro e Francielle, participam do painel “Tokenização do concreto: como a digitalização contribui com o controle de qualidade e tecnológico”, a sócia da PhD Engenharia, Jessika Pacheco e o sócio da MConsult Engenharia, Marcio Teixeira. O painel será realizado no dia 27 de agosto, às 11h15. 

Programação discute o futuro da construção

A programação do congresso Construindo Conhecimento, que acontece durante o Concrete Show, contará com mais de 50 horas de conteúdo técnico, distribuídas em dois palcos simultâneos. Neste ano, o tema central será “O novo concreto: soluções industriais e sustentáveis que transformam o trabalho”.

O congresso reunirá especialistas, pesquisadores, representantes de entidades setoriais e executivos para discutir as principais tendências e desafios da construção civil.

Entre os destaques da programação estão o 5º Congresso ABESC de Pavimento Urbano de Concreto (PUC), o Seminário de Pré-Moldados de Concreto da ABCIC, o Congresso IBRACON: Novidades na Cadeia Produtiva das Estruturas de Concreto, o Congresso Anapre e painéis sobre a evolução do perfil profissional na construção, geologia e geotecnia em obras complexas, além de desafios da impermeabilização em subsolos com lençol freático ativo.

Como novidade desta edição, o congresso contará com a Arena Imersiva, espaço dedicado a workshops e cursos práticos. Em parceria com o BIM Fórum Brasil, serão realizados treinamentos sobre a metodologia BIM, enquanto o ConstruLAB promoverá experiências com inteligência artificial aplicada ao setor. 

Já o IDD Educação Avançada levará ao evento o IDD Xperience, curso voltado à impermeabilização e proteção do concreto, reforçando o compromisso do Concrete Show com a capacitação dos profissionais da construção. O curso do IDD possui ingresso exclusivo e inscrição separada do congresso “Construindo Conhecimento”.

Como participar do evento?

A edição de 2026 marca uma mudança no modelo de acesso ao evento, com a adoção do credenciamento pago para visitantesA visitação terá valor de 150 reais na modalidade inteira e 75 reais na modalidade meia solidária, mediante a doação de um quilo de alimento não perecível. Os ingressos para visitantes e congressistas do “Construindo o Conhecimento” estão disponíveis no site do evento, Concrete Show 2026.