As construtoras imobiliárias estão entre as usuárias de smart glasses no Brasil, concentrando a tecnologia na etapa de inspeção final antes da entrega dos empreendimentos. Os óculos inteligentes, como são conhecidos em português, podem reduzir as taxas de erros de inspeção em 90%, evitando a produção de relatórios inconsistentes e custos pós-obra para consertar os defeitos.

Os dispositivos reúnem câmera, microfone, alto-falante e conectividade sem fio em uma estrutura compatível com capacetes e equipamentos de proteção individual. Com isso, as vistorias podem ser feitas com as mãos livres, o que possibilita que o inspetor mantenha os pontos de contato ao subir escadas, ao mesmo tempo em que transporta ferramentas e manuseia equipamentos. Ele não precisa interromper o processo para digitar, em smartphone ou tablet, nem anotar nas planilhas de papel.

Outro benefício é que as imagens da inspeção podem ser transmitidas em tempo real para consultores de segurança localizados fora do canteiro de obras. Nesse caso, o consultor remoto acompanha a movimentação do operador, valida as iniciativas de segurança, além de direcionar o registro visual de riscos.

Em aplicações mais avançadas, os dados de imagem e áudio, capturados durante o percurso, alimentam sistemas de inteligência artificial (IA) que elaboram o rascunho inicial dos relatórios de inspeção para revisão técnica.

Inspeções até 35% mais rápidas

Segundo Diego Mendes, CEO da ConstruCode, essas etapas já acontecem no Brasil, mas ainda para algumas construtoras. Ele acredita que o processo vai avançar para outras fases intermediárias como as de alvenaria, instalações hidráulicas e elétricas. E também deve migrar para empreendimentos de infraestrutura, como a construção de fábricas e de sistemas de transporte público.

O modelo de inspeção com óculos inteligentes também pode eliminar a subjetividade do processo, ao usar um questionário objetivo e binário. Durante o percurso no imóvel, o inspetor ouve como devem ser as verificações necessárias para cada item e sinaliza a conformidade ou não-conformidade de cada um deles. Isso é feito de forma intuitiva, deslizando o dedo na haste dos óculos, ação que registra o dado e captura fotos ou vídeos na visão de campo do inspetor.

O processo mais objetivo pode viabilizar que profissionais menos experientes sejam contratados para a inspeção. O histórico de atuação de Mendes mostra que a tecnologia acelera as rotinas de inspeção e alinhamento entre 25% e 35%. Os números indicam ainda que as reduções em custos estariam entre 40% e 80%, dependendo do volume de empreendimentos vistoriados.

O especialista lembra que a etapa de inspeção é um processo custoso para as construtoras, com as vistorias terceirizadas estimadas entre R$ 85 a R$ 180 reais. O tempo de execução médio é de 1,5 hora para um apartamento padrão. Já a taxa de erros de 15% é outro complicador e acontece porque as inspeções tradicionais, com vistoriadores usando planilhas em papel ou eletrônicas, não cobrem, via de regra, o apartamento todo.

Foco em 20% dos itens vistoriados

Sem citar a construtora, Mendes exemplifica o caso de uma grande empresa brasileira que tem a meta anual de entrega de 40 empreendimentos. Somente um deles possui 1,2 mil unidades, com apartamentos de 80 m2. Como o fluxo operacional da empresa estabelece a realização de 3 vistorias por unidade, o tempo total necessário para a inspeção completa do empreendimento atinge 5.400 horas de trabalho. Em uma jornada diária de 8 horas por trabalhador, a execução dessa rotina por um único profissional demandaria um ano. Os prazos para liberação dos edifícios aos compradores, por outro lado, variam entre três e quatro meses.

As métricas de inspeção em campo nas construtoras locais, segundo ele, mostram que um inspetor sem padronização verifica em média 18% dos ambientes e identifica duas falhas por unidade, ao passo que a checagem completa do mesmo imóvel revela 14 falhas. Em auditorias de relatórios tradicionais, identificou-se o registro de vistorias concluídas em 1,5 minuto para apartamentos com área de 120 metros quadrados.

Os dados históricos de inspeção indicam que 80% das não conformidades concentram-se em 20% dos itens vistoriados, o que facilita a o uso de óculos inteligentes, possibilitando a criação de roteiros focados.

Realidade aumentada (AR)

Os exemplos internacionais também mostram como o uso de óculos especiais avança no exterior. É o caso da realidade aumentada (AR), com emprego de dispositivos com especificações próprias, como os visores acoplados à cabeça e capacetes inteligentes com visores transparentes. Diferente dos óculos focados em gravação de imagem e áudio, os equipamentos de realidade aumentada projetam modelos virtuais em três dimensões (BIM e CAD) diretamente sobre a estrutura física do canteiro de obras.

O alinhamento dos hologramas às coordenadas reais da edificação ocorre por meio de algoritmos de mapeamento e localização simultâneos (SLAM), registro de imagens e ancoragem espacial. O sistema exige a instalação prévia de marcos físicos no terreno e a calibração com os arquivos do projeto para evitar o deslocamento dos elementos virtuais durante a movimentação dos operadores.

A medição de resultados da realidade aumentada em canteiros de obras apresenta indicadores numéricos de retorno sobre o investimento. A sobreposição do modelo BIM sobre a estrutura construída reduz em 90% a ocorrência de interferências de projeto, como a colisão entre tubulações e vigas de sustentação. A checagem de alinhamento em estruturas metálicas e armações é 30% a 35% mais rápida do que o método baseado na leitura de pranchas em papel.

A adoção da realidade aumentada reduz os custos com retrabalho em até 85% e diminui o desperdício de materiais em 15% devido à precisão nos guias de corte digitais. Nos indicadores de segurança do trabalho, os treinamentos simulados em realidade aumentada registram queda de 25% na taxa de incidentes em canteiros de obras. No suporte técnico remoto com especialistas, a paralisação de equipamentos cai 40% e os custos com viagens caem 75%.

O tempo médio para recuperação do capital investido (ROI) na implantação de tecnologia de realidade aumentada em construtoras é de 4 meses. O mercado global de realidade estendida (XR) voltado à construção civil foi dimensionado em US$ 23,6 bilhões em 2025, com projeção de atingir US$ 67,34 bilhões em 2030, número que representa uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 23,34%.