A produção de aço com menor pegada de carbono é um processo complexo, que começa muito antes dos portões da usina siderúrgica e envolve escolhas estratégicas em toda a cadeia produtiva. É o que explica Ricardo Penido, superintendente comercial da Aço Verde do Brasil (AVB), em entrevista na qual detalha os pilares que sustentam a rota de descarbonização adotada pela companhia.

Segundo Penido, o processo tem início já na escolha da matéria-prima: a empresa utiliza um minério de ferro que demanda menos energia durante as etapas de fabricação do aço, reduzindo o consumo energético desde o primeiro estágio da produção. A eficiência não para aí — a planta de processamento também reaproveita os gases gerados ao longo da operação, transformando o que seria descarte em uma fonte adicional de energia, o que diminui ainda mais a dependência de insumos externos e a emissão de poluentes.

Outro elemento central da estratégia é a substituição do carvão mineral — tradicionalmente fóssil e intensivo em carbono — pelo biocarbono produzido a partir de florestas plantadas de forma sustentável. Essa troca representa um dos diferenciais mais importantes da siderurgia brasileira no cenário mundial, posicionando o país como protagonista na produção de aço verde em escala industrial.

Na entrevista a seguir, Ricardo Penido detalha cada uma dessas etapas e explica como a combinação desses fatores coloca a Aço Verde do Brasil na vanguarda de uma transformação que deve redefinir os padrões ambientais da indústria siderúrgica nos próximos anos. Acompanhe:

Como podemos definir o que é aço verde?

Ricardo Penido: É um aço produzido com uma intensidade de emissões muito menor em comparação às rotas siderúrgicas convencionais. No nosso caso, esse resultado está ligado principalmente ao uso de biocarbono proveniente de florestas plantadas, em substituição ao carvão mineral, além do aproveitamento de fontes renováveis de energia e de uma produção integrada.

Quais benefícios ele traz?

Ricardo Penido: O principal benefício está na redução das emissões associadas à produção de um material amplamente utilizado pela construção civil. Isso permite reduzir a pegada de carbono ligada aos insumos empregados em obras sem alterar a função estrutural que o aço já desempenha.

A menor intensidade de emissões na origem do produto pode contribuir para empresas que buscam reduzir o impacto ambiental de suas próprias cadeias de fornecimento.

Que iniciativas ajudam na produção desse tipo de aço?

Ricardo Penido: A produção de aço com menor emissão depende de decisões tomadas ao longo de toda a cadeia. Na AVB, uma das mais importantes é a substituição do carvão mineral pelo biocarbono obtido a partir de florestas plantadas de eucalipto. Ele é utilizado nos altos-fornos como agente redutor para a fabricação do ferro-gusa. Também investimos em eficiência energética e reaproveitamento dos gases gerados no processo siderúrgico, além de aproveitamento de resíduos industriais. Na área florestal, projetos de melhoramento genético e biotecnologia tem o intuito de elevar a quantidade de madeira e biocarbono produzida por hectare sem ampliar proporcionalmente a área plantada.

E sobre o minério de ferro?

Ricardo Penido: Esse é outro ponto importante para a siderurgia: a qualidade e a pegada ambiental do minério. No Brasil, já existem iniciativas voltadas ao desenvolvimento de matérias-primas que demandam menos energia durante a produção do aço.

Qual é o impacto do aço verde na cadeia da construção civil?

Ricardo Penido: A relação é direta porque boa parte do nosso portfólio chega justamente ao mercado da construção civil. Quando esses produtos são fabricados por uma rota de menor intensidade de carbono, a construção passa a incorporar um material com uma pegada menor já na etapa industrial. Isso ganha importância à medida que construtoras ampliam a avaliação das emissões associadas aos materiais utilizados nos empreendimentos. O aço verde não exige uma nova aplicação na obra, a diferença está principalmente em como aquele aço foi produzido antes de chegar ao canteiro.

Quais outros pontos são importantes para entender a produção de aço verde?

Ricardo Penido: Um aspecto importante é que a redução das emissões não depende somente do que ocorre dentro da usina. No nosso caso, a eficiência da própria floresta interfere diretamente na disponibilidade e na qualidade do biocarbono utilizado na produção siderúrgica. Outro ponto que merece destaque é a mensuração das emissões. Nosso dado mais recente indica cerca de 0,02 tonelada de CO₂ por tonelada de aço produzida, frente a uma média internacional de aproximadamente 1,89 tonelada. Essa diferença ajuda a dimensionar o impacto da rota produtiva adotada pela companhia. Para a construção civil, esse debate tende a ganhar espaço porque a descarbonização das edificações passa também pela escolha dos materiais empregados. Nesse contexto, conhecer a origem do aço e a intensidade de emissões de sua produção pode se tornar um critério cada vez mais importante para a cadeia.