Este artigo sintetiza as principais contribuições, inovações e diretrizes que discutimos recentemente em Natal/RN, palco de dois dos mais relevantes encontros técnicos do nosso setor. Entre os temas centrais, destacam-se os avanços em dimensionamento mecânico-empírico, a otimização de misturas de Concreto Dosado em Central (CDC), práticas executivas para pavimentos tradicionais e drenantes, patologias e estratégias de recuperação viária, além dos caminhos operacionais para a descarbonização da cadeia de concretagem no Brasil.

A infraestrutura viária urbana brasileira enfrenta hoje o desafio premente de conciliar durabilidade estrutural, um custo de ciclo de vida (Life Cycle Cost — LCC) favorável e sustentabilidade ambiental. É nesse cenário que o Pavimento Urbano de Concreto (PUC) se consolida como uma solução madura e indispensável para a mobilidade das nossas cidades.

A realização conjunta do 67º Congresso Brasileiro do Concreto (IBRACON), que reuniu mais de 1.200 congressistas, e do 15º Congresso Ibero-Americano de Pavimentos de Concreto (com apoio da ABESC, IBRACON e FIHP), que contou com mais de 300 inscritos e representantes de 12 países da América Latina e Península Ibérica, ratificou o alinhamento do setor nacional às melhores práticas globais de engenharia de pavimentação.

Reforçou também o protagonismo do Concreto Dosado em Central (CDC) como elemento chave para a padronização e garantia de qualidade do piso rígido urbano.

Avanços técnicos e tendências em pavimentação rígida

Os debates técnico-científicos promovidos nos congressos demonstraram avanços significativos na engenharia de materiais e no dimensionamento estrutural:

  1. Dimensionamento Mecânico-Empírico e Placas Otimizadas: Evolução na otimização de espessuras através do conceito de placas curtas, reduzindo tensões de tração na flexão provocadas pelo gradiente térmico e pelas cargas de tráfego.
  2. Reforço com Macrofibras: Uso intensivo de macrofibras sintéticas e metálicas, proporcionando ganho em tenacidade, controle efetivo da fissuração por retração e alívio de tensões nas juntas.
  3. Sistemas Construtivos e Produtividade: Adoção de réguas vibratórias automatizadas, fôrmas deslizantes compactas e sistemas digitais de controle de nivelamento adaptados à geometria complexa das vias urbanas.
  4. Desempenho Ambiental e Albedo: Consolidação de dados demonstrando que a alta refletividade do concreto (elevado albedo) atenua a formação de ilhas de calor urbanas e reduz a demanda por iluminação pública noturna.

Métodos construtivos e tecnologia de materiais: demonstrações práticas

Durante os eventos, a execução prática de trechos experimentais de PUC Tradicional e PUC Permeável/Drenante permitiu correlacionar os parâmetros de dosagem em central com as variáveis de campo.

Pavimento Urbano de Concreto (PUC Tradicional)

A produção via CDC assegura a homogeneidade do traço. Na execução prática, destacaram-se:

  • Trabalhabilidade e Adensamento: Emprego de aditivos superplastificantes e incorporadores de ar de última geração, garantindo trabalhabilidade sem segregação e adensamento vibratório homogêneo.
  • Acabamento e Cura: Aplicação de texturização superficial (vassouramento) para garantia da aderência pneu-pavimento (macrotextura) e aplicação imediata de membrana de cura química para mitigar a fissuração por retração plástica nos primeiros minutos pós-lançamento.

PUC Permeável / Drenante

A demonstração do pavimento poroso destacou o papel do concreto na Drenagem Urbana Sustentável (Sustainable Drainage Systems – SuDS):

  • Dosagem de Concreto Poroso (No-Fines Concrete): Emprego de mistura com granulometria descontínua de agregados graúdos selecionados e pasta de cimento aditivada, resultando em porosidade comunicante entre 15% e 25%, mantendo a capacidade de suporte mecânico para tráfego leve e médio.
  • Cuidados Executivos: O adensamento deve ser estritamente roletado ou executado com régua vibratória leve; o uso de vibradores de imersão convencionais é vedado, pois sela os poros e anula a permeabilidade.
  • Abordagem Sistêmica: A eficiência hidráulica depende da integração com o sub-leito e sub-base (armazenamento temporário e infiltração).
  • Manutenção Preventiva: A durabilidade do sistema exige planos periódicos de varrição mecanizada e sucção a vácuo para evitar a colmatação (tupimento dos poros por material fino e detritos).

Patologias, desgaste e manutenção preventiva

A discussão sobre restauração e extensão da vida útil dos pavimentos rígidos enfatizou o diagnóstico precoce das seguintes manifestações patológicas:

  • Fissuramento por Retração ou Sobrecarga: Provocado por atraso no corte das juntas de indução, cura deficiente ou subdimensionamento frente às cargas reais.
  • Bombeamento de Finos (Pumping): Acúmulo de água sob as placas em sub-bases instáveis ou mal drenadas, levando ao ejetamento de finos pelas juntas sob tráfego pesado.
  • Quebras de Canto e Desgaste Superficial: Ocorrem principalmente pela ausência de barras de transferência adequadas ou ação de abrasão excessiva combinada a concreto de baixa resistência superficial.

A prevenção dessas falhas está estritamente ligada ao rigor no cumprimento das normas da ABNT, correto dimensionamento do sistema de drenagem de sub-base e execução criteriosa do plano de selagem de juntas.

Diretrizes para a descarbonização no concreto dosado em central (CDC)

A transição para uma economia de baixo carbono exige ações imediatas e estratégias de longo prazo na produção do concreto estrutural e para pavimentação:

Ações de Aplicação Imediata

  • Empacotamento Granulométrico: Otimização da curva granulométrica dos agregados para maximizar a densidade de empacotamento, reduzindo o volume de pasta de cimento por metro cúbico sem perda de resistência mecânica.
  • Uso de Cimentos e Adições de Baixo Carbono: Substituição parcial do clínker por fíler calcário, pozolanas e cimentos ternários (ex.: LC3).
  • Aditivos de Alta Eficiência: Emprego de redutores de água de alta eficiência para manutenção de razões água/cimento (a/c) reduzidas.
  • Automação de Central: Monitoramento digital e em tempo real da umidade dos agregados para ajuste imediato da água de amassamento, eliminando variações de traço e refugos.

Desafios Tecnológicos e Regulatórios

  • Ligantes Alternativos: Desenvolvimento e escala industrial para ligantes geopoliméricos ou ativados alcalinamente.
  • Captura de Carbono (CCU): Mineralização de CO2 durante o processo de mistura do concreto nas centrais.
  • Agregados Reciclados: Avanço na regulamentação municipal e normatização nacional para o uso em escala de Agregados Reciclados de Resíduos de Construção e Demolição (RCD) com função estrutural em pavimentos.

A realização dos congressos IBRACON, Ibero-Americano e do Seminário ABESC comprovou a maturidade técnica e a capacidade de entrega da indústria do concreto no Brasil. O Pavimento Urbano de Concreto (PUC) deixa de ser visto apenas como uma alternativa construtiva e passa a se consolidar como uma solução estratégica de infraestrutura sustentável, unindo elevadíssima vida útil, segurança viária e baixo impacto ambiental.

A integração entre entidades do setor (ABESC, IBRACON, FIHP) e empresas associadas demonstra que a cadeia produtiva está alinhada e pronta para apoiar os municípios na modernização de suas redes viárias com Concreto Dosado em Central de alto desempenho.