As patologias do concreto representam um dos maiores desafios na construção civil, envolvendo problemas estruturais que podem comprometer a segurança e a durabilidade das edificações. Entre as principais anomalias estão fissuras, eflorescência, infiltração de umidade, descolamento de revestimentos e corrosão nas ferragens, fatores que exigem atenção redobrada dos profissionais da área.
Para o engenheiro civil e gerente de Desenvolvimento Técnico de Mercado da Votorantim Cimentos, Maurício Bianchini, a corrosão nas armaduras de aço é uma das patologias mais prejudiciais, devido à sua rápida progressão e impacto na estrutura.
Ele explica que um dos erros mais graves na execução é a falha no cobrimento das ferragens. “Reduzir um centímetro dessa proteção é pior do que utilizar um concreto de péssima qualidade”, alerta Bianchini, reforçando a importância de seguir rigorosamente as normas técnicas para evitar danos irreversíveis.
Outro problema é a argamassa feita na obra: o fato de 95% da argamassa no Brasil ainda é ser produzida diretamente nos canteiros, sem controle rigoroso de qualidade, gera fissuras e baixa aderência em revestimentos e fachadas, sendo uma das grandes incidências de patologias. “A transição para argamassas industrializadas reduziria drasticamente esses problemas”, ressalta o especialista.
Se os problemas e as soluções já são reconhecidos, um dos diferenciais recentes é a aplicação de novas tecnologias e abordagens para diagnosticar e resolver as anomalias e – até mesmo – prevení-las com maior precisão.
Quebra de paradigma nos 28 dias
A prevenção também é uma questão ambiental: reparar uma fachada fissurada exige fabricar mais material, transportar e instalar equipamentos, o que gera emissões de CO2 que poderiam ser evitadas se a obra fosse construída para ser durável, explica o especialista.
Segundo Bianchini, uma grande inovação conceitual é a mudança no controle de resistência do concreto. Em vez de medí-la apenas aos 28 dias, a tendência, já usada em super edifícios, é especificar a resistência para 56, 61 ou mais de 90 dias.
Isso permite usar menos cimento, o que gera menos calor de hidratação, evitando fissuras, e reduz a emissão de CO2, contribuindo para a sustentabilidade da construção.
O especialista lembra que é possível combinar os ganhos de reduzir patologias e aumentar a pegada sustentável do concreto. Ele dá como exemplo a produção de cimentos compostos, com adição de pó de calcário, escória ou pozolana, que necessitam de menos clínquer. O resultado é a entrega de concretos mais eficientes, sustentáveis e com menor risco de fissuração.
O concreto autorregenerável é outra iniciativa tecnológica, sendo uma realidade comercial, a partir da adoção de aditivos cristalizantes.
“Quando o concreto sofre uma fissura de até 0,4 milímetros e entra em contato com a água, o aditivo reage quimicamente criando cristais que selam os poros e regeneram a estrutura”, resume Bianchini. O executivo explica que esse tipo de concreto foi usado recentemente na piscina de ondas de um clube de alto padrão em São Paulo.
A aplicação de soluções de concreto autorregenerável com uso de bactérias, também conhecido como bioconcreto, ainda está limitada aos estudos acadêmicos. Nesse caso, as bactérias são encapsuladas em microesferas e adicionadas à massa de concreto, prolongando a vida útil e reduzindo os custos de manutenção da obra.
Drones para inspeção subaquática
Outras tecnologias emergentes, porém, estão ganhando tração no combate às patologias do concreto. É o caso dos drones com termografia, utilizados na inspeção de edifícios e pontes.
Para o engenheiro, trata-se de uma mudança radical, uma vez que esses tipos de equipamentos conseguem mapear fachadas e identificar descolamentos e fissuras invisíveis a olho nu. Com isso, a prática de inspeção com profissionais pendurados em rapel deixa de ser necessária.
Ainda mais disruptivos são os drones subaquáticos, que passaram a ser usados para inspecionar pilares de pontes e caixas d’água de indústrias sem precisar esvaziá-las.
Bianchini destaca ainda os projetos para instrumentar pontes com sensores que medem recalques e movimentações em tempo real. Conhecido como método da maturidade, a tecnologia emergente consiste na instalação dos dispositivos diretamente embutidos no concreto para monitorar a sua temperatura.
O funcionamento se baseia na correlação física entre o calor emitido pelo material durante o seu processo químico e o seu respectivo ganho de resistência mecânica. Na prática, o sensor captura a temperatura interna da estrutura e transmite essa informação via redes Wi-Fi diretamente para um dispositivo móvel, como o celular de um engenheiro na obra.
Os dados térmicos enviados são comparados às informações históricas de estudos laboratoriais prévios para identificar a resistência exata do concreto em tempo real, podendo evitar problemas futuros.
A metodologia permite desformar paredes rapidamente, sem precisar esperar o rompimento de corpos de prova no laboratório.
IA como copiloto de especialistas
Outra frente de dados online são os caminhões betoneira, que podem usar sensores para dosar água automaticamente durante o trajeto entre as concreteiras e os canteiros. O exemplo mostra a incorporação de tecnologias que misturam engenharia mecânica e construção civil para garantir o controle rigoroso de qualidade do material e, em última instância, podem evitar a ocorrência de algumas patologias.
“A grande inovação é que esses sistemas conseguem dosar a água automaticamente durante o trajeto do caminhão até o canteiro de obras. Isso garante que o concreto chegue ao destino final perfeitamente ajustado e com a fluidez necessária para a aplicação, sendo preparado sozinho pela máquina, sem a necessidade de qualquer intervenção humana”, detalha Bianchini.
Apesar de ser uma ferramenta inovadora para o controle de qualidade na entrega, ele ressalta que essa tecnologia de dosagem autônoma no trajeto ainda é pouco utilizada no Brasil.
A inteligência artificial também pode ser um recurso contra as patologias do concreto. Para o especialista da Votorantim, a IA não substitui o diagnóstico de um engenheiro especialista, mas é uma excelente ferramenta de apoio.
Um exemplo de atuação da tecnologia é na ajuda em organizar grandes volumes de dados de inspeção como, por exemplo, classificar diferentes tipos de anomalias, com base na gravidade delas, identificando padrões repetitivos de fissuras em milhares de imagens.
O executivo cita casos reais onde a IA vem vendo usada em laboratório para analisar fotos tiradas em microscópio e calcular o formato de grãos de areia, e também para contar a quantidade de bolhas formadas em amostras de cimento misturado. Nos dois casos, os especialistas em concreto podem avançar em seus diagnósticos, prevendo falhas estruturais com maior rapidez e precisão.
Na América do Norte, a Votorantim utiliza IA para processar milhares de informações e cruzar dados de cimentos e aditivos, otimizando traços de concreto, de forma a torná-los mais baratos e sustentáveis, segundo Bianchini. No Brasil, a empresa usa a IA para monitorar silenciosamente os testes de cimento nas fábricas e alertar os engenheiros, caso algum parâmetro de resistência saia do padrão.
Novamente: a ferramenta é um copiloto e deve dar suporte aos técnicos a melhorar os produtos que podem prevenir falhas já conhecidas.