O Concrete Show 2026 foi palco de uma iniciativa inédita: o primeiro encontro “Construindo com Mulheres”, que reuniu profissionais do setor para debater temas como liderança feminina, igualdade de gênero e protagonismo na construção civil.

Dados recentes do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) revelam que, apesar de avanços, a presença feminina na engenharia ainda é significativamente menor do que a masculina. Dos 1,2 milhão de profissionais com registro ativo no Sistema Confea/Crea e Mútua, apenas 242 mil são mulheres, representando cerca de 20,2% do total. Em 2025, por exemplo, 26% dos novos registros no Confea foram de mulheres. O número evidencia o domínio masculino na área, embora a participação feminina tenha crescido nos últimos anos.

O tema central do “Construindo com Mulheres” foi “Carreira, Autoridade e Posicionamento”, com um painel que abordou como ocupar espaços estratégicos na construção civil. O evento reforçou a importância de criar redes de apoio e inspirar mulheres a seguirem fortes em suas carreiras, independentemente de seus cargos ou empresas.

A palestra começou com o depoimento da Carla Ramhold, business manager da Informa, organizadora do Concrete Show. “Gostaria de agradecer a todas vocês que estão aqui neste dia tão importante para nós, mulheres, em um mercado tão masculino. Quando a ideia de fazer este encontro surgiu, eu disse: ‘Sim, precisamos estar à frente’. Muito obrigada a todas vocês que representam um grupo tão importante.”

O evento contou com a participação de mulheres de destaque no setor da construção civil, como Aline Guasti, sócia e cofundadora da M Consult Engenharia; Priscila Bezerra, especialista em impermeabilização e fundadora da PB Engenharia; Valéria Cassemiro, diretora de obras públicas e referência em gestão de grandes projetos; e Gabriela Ribeiro, engenheira civil e especialista em tecnologia do concreto, e a mediadora, conselheira da Ibracon, Jéssica Dantas.

Espaço e protagonismo para ‘elas’

Aline Guasti apresentou o projeto “Metamorfose das Mulheres que Constroem”, uma iniciativa que nasceu de sua indignação com as desigualdades no mercado da construção civil. “O Metamorfose reúne hoje mais de 180 mulheres. Ele é baseado em três pilares: saúde física, mental e emocional, e promove ações como eventos anuais, mentorias e debates sobre o papel da mulher na construção civil”, explicou Aline.

Em seguida, Priscila Bezerra, especialista em impermeabilização e fundadora da PB Engenharia, trouxe reflexões importantes para o encontro, destacando o protagonismo feminino na engenharia e iniciativas voltadas para o fortalecimento das mulheres no setor.

“Estou muito feliz de estar aqui com mulheres tão inspiradoras. Hoje, quisemos fazer algo diferente: falar sobre o protagonismo da mulher na engenharia. Aqui, temos mulheres com histórias e carreiras totalmente diferentes, mostrando que o protagonismo feminino acontece onde decidimos estar”, afirmou Priscila.

Um dos principais destaques de sua fala foi o Programa Mulher, do Crea-SP, que promove ações de capacitação, acolhimento e combate à violência contra a mulher. “O Programa Mulher traz ações de capacitação, mentorias, acolhimento e, principalmente, orientações sobre como denunciar o assédio, que pode ser moral, físico ou psicológico. Não apenas no ambiente profissional, mas também no dia a dia. O objetivo é promover e valorizar as profissões nas áreas tecnológicas, estimular a liderança feminina e a participação em espaços de decisão”, explicou.

Priscila também enfatizou a importância de criar uma rede de apoio estruturada e de fomentar parcerias com universidades, entidades e movimentos sociais. “Conseguimos o Selo Ouro da ABNT contra a violência à mulher, uma certificação que reconhece as ações do Crea-SP para proteger e fortalecer as mulheres. Esse foi um grande feito, que reforça nosso compromisso com a criação de ambientes mais seguros e inclusivos”, destacou.

Outro ponto abordado foi o Agosto Lilás, campanha que celebra o aniversário da Lei Maria da Penha, marco na proteção das mulheres contra a violência. Priscila explicou as mudanças recentes na legislação, como a ampliação da lei para incluir agressões físicas de qualquer homem, não apenas de familiares ou parceiros. “O Agosto Lilás é um momento de conscientização. É importante que todos saibam que existem canais de denúncia, como o 180, as delegacias da mulher, a Casa da Mulher Brasileira, a Defensoria Pública e o Ministério Público. No Crea-SP, as denúncias podem ser feitas pelo Fala.BR”, orientou.

Ela também destacou os avanços conquistados pelas mulheres ao longo das últimas décadas, como o direito ao voto, à autonomia no trabalho e à decisão sobre a maternidade. “Estamos caminhando, mas ainda há muito a ser feito. Novas leis, como a de Stalker e a que protege mulheres contra ataques aos filhos, estão sendo criadas para ampliar essa proteção. É essencial que as mulheres conheçam seus direitos e saibam onde buscar apoio”, afirmou Priscila.

A liderança feminina na transformação da construção civil

O encontro foi marcado por histórias inspiradoras e debates sobre como as mulheres podem ocupar espaços estratégicos, construir autoridade e deixar um legado para as próximas gerações.

Entre as participantes, Gabriela Ribeiro, engenheira civil e segunda geração de uma família que atua no setor de concreto, compartilhou sua trajetória de superação e sucesso. “Trabalhar com meu pai nunca foi um plano. Ele sempre foi muito rigoroso e, no início, não me via como uma engenheira potencial. Precisei me provar muito, buscar conhecimento técnico e traduzir isso para a realidade da nossa empresa. Hoje, vejo que essa dedicação fez toda a diferença”, relatou Gabriela, que conseguiu posicionar a empresa familiar em um mercado competitivo, mesmo sendo de pequeno porte.

A empreendedora Aline Guasti, também trouxe reflexões importantes sobre a maternidade e o empreendedorismo. “A gravidez não é um problema na nossa carreira. Por muito tempo, isso foi um tabu, mas hoje vemos que é possível conciliar a maternidade com uma trajetória profissional de sucesso”, afirmou Aline, que inspirou outras mulheres presentes no evento.

Priscila Bezerra reforçou ainda a importância de ocupar espaços estratégicos em áreas tecnológicas. “Há anos, eu não imaginava que alguém pudesse ser protagonista em um tema tão específico como impermeabilização. Hoje, vejo que é possível trazer relevância técnica e acessibilidade para assuntos que antes eram pouco explorados”, disse Priscila.

Ela compartilhou sua visão sobre a importância de se especializar em um nicho. “Quem faz tudo não é lembrado por nada. A especialização permite que você seja referência em uma área específica. Eu comecei na impermeabilização por oportunidade, mas me dediquei a aprender, errar e evoluir. Hoje, sou chamada para resolver problemas em diferentes estados do Brasil porque comunico meu trabalho e me posiciono como especialista”, explicou Priscila.

Pioneirismo feminino na gestão pública de São Paulo

Valéria, arquiteta e diretora de obras públicas na cidade de São Paulo, destacou os desafios e as conquistas de sua trajetória no setor público, ressaltando o papel das mulheres em posições de liderança. “Gerenciar obras públicas é um desafio enorme, mas é gratificante mostrar que as mulheres têm espaço e protagonismo também no setor público”, afirmou.

Ela também celebrou o marco histórico de sua atuação nas obras da capital paulista. “Eu e a minha secretária de obras, Adriana Ciano, somos pioneiras na área de gestão e controle. Antes, nunca houve na história uma secretária adjunta de obras, ela é a primeira, e nunca houve uma diretora de obras, eu sou a primeira. Mas isso é fruto de uma construção de 20 anos trabalhando na área, abraçando desafios e me dedicando de corpo e alma. Hoje, tenho muito orgulho de estar onde estou e de abrir caminhos para as próximas gerações”, afirmou Valéria, reforçando a importância de deixar um legado para as mulheres que virão.

A diretora também compartilhou os três pilares que norteiam sua atuação: atitude, resiliência e empatia. “A atitude é essencial para tomar decisões e avançar. A resiliência nos ajuda a lidar com o caos e manter a tranquilidade emocional. E a empatia é fundamental para entender e extrair o melhor de cada pessoa da equipe, porque sozinha eu não consigo fazer nada”, explicou Valéria.

O encontro reforçou a relevância de discutir temas como gestão, equilíbrio e autoridade técnica, evidenciando que o protagonismo feminino é construído com coragem, dedicação e a capacidade de conciliar diferentes aspectos da vida.

“Este é apenas o primeiro de muitos encontros. Nosso desafio agora é construir um legado que inspire e empodere outras mulheres a ocuparem espaços estratégicos na construção civil”, concluiu Jéssica Dantas, engenheira e mediadora do debate.