A cidade de Guaratuba, no Paraná, celebrou neste mês a inauguração da Ponte de Guaratuba, um marco histórico para a infraestrutura brasileira. Trata-se da primeira ponte do país construída inteiramente com concreto autodensável. O uso desse material reduziu tanto os custos quanto o tempo de execução da obra, estabelecendo um novo padrão de eficiência em comparação a projetos similares.

De acordo com a Secretaria de Infraestrutura e Logística, o custo médio para a construção de pontes desse porte no Brasil é estimado em cerca de R$ 25 mil por metro quadrado. No entanto, a Ponte de Guaratuba, foi concluída com um custo de R$ 18 mil por metro quadrado, o que representa uma redução de aproximadamente 28%. Esse resultado evidencia a eficiência e a economia proporcionadas pela utilização de concreto autodensável.

Além disso, o projeto se destaca também pelo prazo de execução. Iniciado em 30 de abril de 2024, com as atividades de fundação utilizando perfuratriz, a obra foi concluída em  dois anos, tempo considerado curto para uma estrutura de alta complexidade.

A construção da Ponte de Guaratuba utilizou cerca de 22 mil toneladas de cimento, produzido em Rio Branco do Sul, Paraná. Esse volume, equivalente a 48 mil metros cúbicos de concreto, seria suficiente para erguer dois edifícios de 46 andares, cada um com quatro apartamentos de 80 metros quadrados por andar.

A Ponte possui 1.244 metros de extensão e 19,6 metros de largura, além de 1.826 metros de acessos nas duas margens, totalizando 3,07 quilômetros de intervenções. A estrutura conta com quatro faixas de tráfego, duas em cada sentido, além de passeios laterais que incluem ciclovia e espaço para pedestres. O projeto combina vigas pré-moldadas e um trecho estaiado de 320 metros, sustentado por duas torres de 40 metros de altura.

Outras pontes brasileiras

A Ponte Octávio Frias de Oliveira, em São Paulo, com 1,6 quilômetro de extensão, levou cerca de três anos para ser finalizada. Em Teresina, a Ponte Estaiada Mestre João Isidoro França, com apenas 363 metros, também demandou dois anos de construção. No Sul do Brasil, exemplos históricos como a Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, exigiram quatro anos de obras, enquanto a Ponte do Guaíba, em Porto Alegre, com 2,9 quilômetros, foi concluída em seis anos.

A infraestrutura possui 3,07 km, sendo 1.244 metros de extensão, 19,6 metros de largura e 1.826 metros de acessos
Foto: Reprodução Governo do Estado do Paraná / Arnaldo Neto/AEN

Concreto autoadensável: benefícios e utilizações

O concreto autoadensável é aquele que tem a capacidade de fluir com o seu próprio peso, de preencher completamente o espaço ou a fôrma e de produzir um material denso e adequadamente homogêneo sem a necessidade de compactação vibratória.  

É uma tecnologia que dificulta a penetração de substâncias que causam corrosão das armaduras, ampliando significativamente a durabilidade da obra.

Origem e produção 

O concreto autoadensável foi inventado por cientistas japoneses na década de 1980. E foi nesse país que o material ganhou o seu primeiro grande teste: a construção de uma ponte com quase 4 km de extensão entre as ilhas de Awaji e Kobe.   

A ponte Akashi-Kaikyo, como ficou conhecida, foi inaugurada em 1998 e utilizou concreto autoadensável como o seu principal material. O resultado foi uma estrutura altamente resistente (ela está construída em uma região com fortes abalos sísmicos) e a construção do maior vão suspenso do mundo (possui um vão livre com 1991m).  

Mas o que faz do concreto autoadensável a escolha certa para empreendimentos tão sofisticados? Existem duas características principais que o diferenciam do concreto comum, sendo: 

  1. Capacidade de preencher os espaços (dentro de uma fôrma), sem nenhuma intervenção mecânica;  
  2. Resistência à segregação, o que permite que o material preencha esses espaços sem que os seus elementos constituintes se separem.  

O Concrete Show conversou com o professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Bernardo Tutikian, para entender as especificações técnincas deste material.

Ele explica que a capacidade de adensamento ocorre por meio do seu próprio peso, o que elimina a necessidade de vibração para “modelá-lo”.  “Os materiais para a composição do concreto autoadensável são os mesmos do concreto tradicional: cimento, areia, brita, água, adições e aditivos químicos. É nas quantidades de cada item que as suas características são criadas”, afirma.

Enquanto o concreto tradicional possui uma quantidade maior de agregados graúdos, o autoadensável prioriza os agregados finos, o que melhora as suas propriedades, como a coesão da pasta e a resistência.  

Além disso, a utilização de aditivos químicos e sílica ativa garantem maior capacidade de espalhamento do concreto (sem prejudicar a sua resistência) e reduzem a sua porosidade. 

Benefícios e barreiras para a ampla utilização 

Tutikian explica que as vantagens do uso do concreto autoadensável para a construção civil são muitas: “Podemos citar a redução da mão de obra de vibração e espalhamento do concreto, redução de ruídos, maior segurança do trabalho, melhor acabamento da estrutura e maior durabilidade das peças de concreto”.  

Como o concreto autoadensável não exige o uso de força mecânica para ser moldado — reduzindo, assim, o tempo da construção e a mão de obra necessária —, o material passou a ser muito utilizado na indústria de pré-fabricados, famosa por buscar tecnologias e processos que acelerem as etapas de um projeto.  

Mas não é só a indústria de pré-fabricados que pode colher os benefícios do uso do concreto autoadensável. O material é indicado em todo tipo de projeto, especialmente para a construção de: 

  •  Estruturas com distribuições de reforço complexas; 
  • Fundações de tubulões e estacas; 
  • Colunas e paredes de concreto
  • Sistemas de retenção de terra; 
  • Retrofit e reparação; 
  • Poços perfurados.  

No entanto, apesar dos claros benefícios, Tutikian aponta que ainda existem barreiras para a ampla utilização do material: “A maior ainda é o desconhecimento dos profissionais tomadores de decisão”, opina.  

Um dos movimentos na direção de superar essa barreira foi a revisão da norma ABNT NBR 15823 — Concreto Autoadensável, da qual o professor da Unisinos fez parte. O objetivo foi mostrar as oportunidades para o uso dessa alternativa.  

Com a nova norma já publicada, espera-se que o concreto autoadensável ganhe competitividade frente ao concreto tradicional, especialmente se considerarmos que se trata de um material mais sustentável — uma das premissas mais buscadas por empresas de construção nos últimos tempos.  

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