A evolução da construção civil vem sendo impulsionada por avanços tecnológicos que transformam conceitos tradicionais em soluções de alta performance. Entre as tendências mais promissoras, destaca-se o concreto autorreparável, capaz de prolongar a vida útil das estruturas ao regenerar fissuras de forma automática.
Essa inovação é viabilizada por nanotecnologia e materiais responsivos, que reagem a estímulos do ambiente para restaurar a integridade do concreto sem intervenção humana.
Mais do que uma revolução técnica, trata-se de um novo paradigma em inovação em materiais, com impactos diretos na sustentabilidade, na redução de custos de manutenção e no aumento da segurança das obras. Para falar sobre o assunto, convidamos Priscila Breyer de Oliveira Reichel, tutora do curso técnico em Design de interiores do Senac EAD. Saiba mais a seguir!
Concreto autorreparável: o que é e como funciona
Priscila Reichel explica que é possível classificar o funcionamento do concreto autorreparável em duas categorias distintas: a de autorreparo autógeno e a de autorreparo autônomo.
“Na primeira, é a propriedade que faz com que o concreto novo feche fissuras muito finas através da hidratação do cimento e da carbonatação do hidróxido de cálcio”, ressalta.
Segundo a convidada, esta categoria se limita a fissuras muito pequenas, e depende das condições do ambiente, como a umidade.
“Já a de autorreparo autônomo envolve a adição deliberada de agentes que só atuam quando a fissura aparece”, complementa.
Esses agentes podem ser bactérias calcificantes (bioconcreto), microcápsulas, sistemas vasculares ou polímeros de memória de forma / materiais reversíveis.
Outras aplicações de concretos regenerativos existentes
Além do fechamento de fissuras em estruturas de concreto, as tecnologias vêm recebendo diversos usos, sendo implantadas em pavimentos e faixas de tráfego, onde melhoram a impermeabilidade e a vida útil de rodovias e faixas de ônibus.
A convidada acrescenta, ainda que essa inovação “também tem sido usada em elementos pré-fabricados e pisos industriais, onde contribui para o controle da microfissuração e a redução de manutenção.”
Ela complementa, explicando ainda que este tipo de concreto “pode ser usado também em obras hidráulicas e estações de tratamento, gerando uma menor necessidade de membranas e impermeabilizantes devido ao selamento ativo”.
Conforme Reichel, existem também ensaios em ligas de asfalto e materiais compósitos com conceito similar, visando o reparo automático da pavimentação de vias.
“Podemos ver a aplicação desses usos na prática em alguns projetos comerciais e piloto de empresas com a Basilik, aplicadas em pisos logísticos, túneis e outras estruturas que exigem alta estanqueidade”, comenta nossa entrevistada.
A nanotecnologia e seus benefícios para o concreto
Atualmente, a nanotecnologia pode ser observada sendo usada de duas formas principais no contexto do concreto autorreparável. “Primeiro, podemos observar o uso de nano-aditivos para melhorar a matriz e a cura do concreto”, inicia a especialista.
“Materiais como a nano-sílica, nano carbonato de cálcio, nanotubos de carbono e óxidos em escala nanométrica melhorar a microestrutura do concreto, reduzindo a porosidade e reforçando a zona de transição agregado-cimento, bem como acelerando a hidratação”, explica.
Tudo isso, segundo Reichel, acaba aumentando a eficiência do fechamento autógeno e a aderência dos produtos de cura.
“Também observamos os sistemas nanoestruturados de liberação/ encapsulamento e sensores, que são partículas nanométricas que podem ser usadas para encapsular nutrientes para bactérias, para controlar a liberação de agentes de cura ou incorporar funcionalidades, como propriedades anticorrosivas”, complementa.
Essas tecnologias, na opinião da tutora, fornecem benefícios como uma maior durabilidade, maior recuperação de propriedades mecânicas, redução da permeabilidade e maior eficácia na selagem de fissuras muito finas.
“Em conjunto com sensores, há potencial para concretos ‘funcionais’ que não só se reparem, mas que também forneçam dados do seu estado”, observa.
O uso desta tecnologia no setor construtivo brasileiro
Priscila Reichel vê, no Brasil, muitos trabalhos de pesquisa acadêmica em universidades e centros, porém, na prática, existem apenas alguns pequenos pilotos e algumas aplicações experimentais e protótipos.
Conforme a entrevistada, a adoção em larga escala comercial ainda é bastante limitada.
“As pesquisas brasileiras estimam boa viabilidade econômica e mostram um desempenho promissor desses materiais em laboratório, mas destacam a necessidade de otimização da mistura, bem como da durabilidade a longo prazo e da padronização dos procedimentos em larga escala”, adianta.
O avanço do concreto autorreparável e impacto na construção civil
De acordo com a especialista, é possível obter, por meio do concreto autorreparável, uma redução do Custo Total De Ciclo De Vida, tendo menos intervenções de manutenção e maior durabilidade de estruturas críticas, como pontes, túneis e reservatórios.
“Podemos também esperar que, para que seja possível a ampla adoção deste material, ele seja normalizado e receba protocolos, a fim de padronizar ensaios de eficiência de cura, critérios de projeto e normas de incorporação de organismos e nano-aditivos”, afirma.
Esta nova tecnologia, segundo Reichel, também deverá permitir uma combinação com sensores embarcados e nanomateriais que permitam que as estruturas se monitorem e reparem parcialmente sozinhas.
“Claro que teremos ainda diversas barreiras a superar para que esta tecnologia seja amplamente utilizada, como custos de escala, a garantia de desempenho a longo prazo, impacto ambiental e a aceitação regulatória”, afirma.
“Mas, como as pesquisas seguem em ritmo acelerado, é possível que nos próximos anos possamos ver estes materiais sendo aplicados de forma mais frequente, especialmente em obras com custo de manutenção mais elevado, ou onde a permeabilidade é crítica”, comemora.
O concreto autorreparável já deixou de ser apenas uma curiosidade laboratorial: há múltiplas abordagens maduras em nível de pesquisa e pilotos reais, e o uso combinado de micro-encapsulamento, bactérias e nanomateriais tem ampliado a eficácia das soluções.
No Brasil há forte produção acadêmica e casos-piloto, mas a adoção ampla depende de normalização, otimização de custos e demonstrações de desempenho a longo prazo.
Para a indústria, a promessa é grande – especialmente para infraestruturas críticas – e cabe ao setor produtivo, laboratórios e órgãos normativos transformar a pesquisa em práticas cotidianas.
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