A escassez de mão de obra qualificada é um desafio crescente para a construção civil. Dados de uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostram que cerca de 82% das empresas de construção enfrentam dificuldades para contratar profissionais preparados, o que impacta diretamente prazos e custos.

Nesse contexto, especialistas defendem que a industrialização dos processos e a qualificação da força de trabalho são os principais caminhos para superar essa barreira e garantir maior produtividade. Saiba mais sobre o debate desse assunto durante o Congresso Construindo Conhecimento, na feira Concrete Show.

O cenário da escassez

Camila Pimenta, diretora da Escola SENAI, destacou que as construtoras enfrentam escassez de mão de obra qualificada. “Além disso, 76% das empresas já revisam prazos de obras devido à falta de profissionais, especialmente em infraestrutura”, pontua.

A especialista ainda destacou outro dado preocupante: 60% dos trabalhadores da construção nunca realizaram cursos de qualificação, embora a maioria demonstre interesse em participar de programas de capacitação.

Modernização da mão de obra na construção civil brasileira

Mudança demográfica e baixa atratividade

A média de idade dos trabalhadores está entre 38 e 41 anos, e apenas 10% da mão de obra é feminina. “O jovem não quer viver como os pais. Quem diante de tantas oportunidades quer carregar saco de cimento?”, provocou Camila.

Essa baixa atratividade reforça a necessidade de transformar o setor em um ambiente mais tecnológico e inclusivo, capaz de atrair novas gerações.

Sistemas Construtivos e Industrialização como resposta

Martin Schwark, responsável técnico da Kronan, ressaltou que a industrialização é um caminho inevitável. “Industrialize! É apenas uma provocação”, disse, reforçando que processos mecanizados e pré-fabricados podem multiplicar a produtividade.

Ele citou exemplos de obras que alcançaram ganhos de até 10 vezes em eficiência ao adotar sistemas híbridos e modularizados, reduzindo a dependência de mão de obra intensiva e aumentando a qualidade final.

Tecnologia e requalificação

A adoção de ferramentas como BIM (Building Information Modeling), drones e inteligência artificial já mostra resultados práticos. “Quanto mais cedo você interfere no projeto, mais barato é. O BIM traz componentes e não linhas, e isso muda completamente a forma de projetar”, explicou Martin.

Camila complementou que a tecnologia só gera impacto positivo quando acompanhada de programas de requalificação. “A mão de obra qualificada dá produtividade. Sem treinamento, o ambiente se torna inseguro e pouco eficiente”, afirmou.

Programas de qualificação do SENAI

O SENAI estruturou três pilares para enfrentar o problema:

  • Conexão jovem-indústria: cursos de aprendizagem para jovens entre 17 e 24 anos, com formação prática em canteiros;
  • Qualificação em canteiros de obras: cursos de curta duração gratuitos, alinhados às necessidades específicas das empresas;
  • Jornada de transformação digital: capacitação voltada para tecnologias como BIM e processos industrializados.

Um exemplo citado foi o curso de Construtor de Edificações, em que alunos constroem uma casa completa, do radier ao telhado, aplicando técnicas modernas como steel frame e drywall. “Eu me sinto realizado por essa experiência, por todo o conhecimento que tivemos aqui no SENAI”, relatou Wagner, jovem aprendiz de 18 anos.

A escassez de mão de obra é um desafio global, mas também uma oportunidade para transformar a construção civil. A combinação de industrialização, tecnologia e qualificação pode garantir obras mais produtivas, seguras e competitivas. Como finalizou Martin Schwark: “Não é só falar, isso já dá para fazer.”